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Antecipar a colação de grau na medicina: um atalho que cobra caro do paciente

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Antecipar a colação de grau em Medicina pode causar riscos à formação médica. Entenda por que seis anos e 8.206 horas são essenciais para um médico seguro e competente.

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“A Unichristus é tipo um pai que briga, mas que quer o nosso melhor sempre.” – Médica formada no Curso de Medicina da Universidade Christus.

A pressão para antecipar a colação de grau de estudantes de medicina tem crescido, amparada, em alguns casos, por resultados de provas que os classificam como “proficientes”. Em outubro de 2025, alunos obtiveram esse status após avaliação do INEP/MEC, baseada em cem questões, das quais sessenta precisavam ser respondidas corretamente. Além disso, a prova avalia as cinco áreas básicas da medicina. Como são cinco áreas, existem em média vinte questões para cada uma. É fácil concluir que um aluno pode ser declarado proficiente, deixando de responder, corretamente, por exemplo, a todas as questões da pediatria e da clínica médica.

Esse médico é completo? É bem formado?

O desempenho é meritório e indica domínio relevante de conteúdos. No entanto, é um equívoco, e até mesmo um risco, concluir que a proficiência em uma única prova possa substituir a formação médica integral.

A Medicina não se limita apenas a conhecimentos teóricos; trata-se sobretudo, do exercício de uma responsabilidade aplicada a contextos imprevisíveis. Uma febre em criança pode representar desde um quadro benigno até uma sepse; um sangramento durante a gestação pode exigir decisão rápida; uma dor torácica pode corresponder tanto a um sintoma de ansiedade quanto a um infarto agudo do miocárdio. Nesses cenários, a preservação da vida ou a prevenção de doenças dependem da integração entre formação teórica sólida, prática supervisionada, repertório clínico e maturidade profissional, elementos os quais não se completam por atestados pontuais de desempenho.

O curso médico, no Brasil, é estruturado para ser integralmente cumprido ao longo de seis anos, em conformidade com as leis e as resoluções nacionais vigentes. Trata-se de um desenho pedagógico que reconhece algo básico: competências clínicas não se “aceleram” sem perda. Elas se constroem por meio de exposição progressiva, repetição deliberada, supervisão e avaliação contínua ao longo de uma carga horária extensa e exigente.

Na Universidade Christus, por exemplo, a formação médica é estruturada em uma carga horária de 8.206 horas. Esse quantitativo não constitui um número arbitrário ou burocrático, mas um tempo necessário para assegurar que o futuro médico experimente, estude e execute, de forma orientada, situações reais de cuidado em saúde. A quantidade e, sobretudo, a qualidade das horas estudadas são determinantes para que o egresso não apenas detenha o conhecimento teórico, mas seja capaz de aplicá-lo com competência técnica e segurança.

A graduação médica tem por objetivo preparar o estudante nas cinco grandes áreas básicas: Clínica Médica, Medicina de Família, Ginecologia e Obstetrícia, Pediatria e Clínica Cirúrgica. A prestação de um atendimento seguro exige excelência teórica e formação prática consistente em cada uma dessas áreas.

Mesmo que as atividades práticas ocorram ao longo de todo o curso, é nos dois últimos anos — o internato — que elas se tornam centrais: o aluno circula por serviços diretamente vinculados às cinco áreas, sob supervisão docente, com metas de aprendizagem específicas. A permanência em cada serviço pode variar de um a quatro meses, de acordo com os objetivos educacionais de cada rotação.

Antecipar a conclusão da graduação médica antes do cumprimento integral dos seis anos de formação como também a carga horária necessária significa, na prática, formar um médico incompleto. Essa incompletude não se dá por falta de talento ou esforço do estudante, mas por ausência de vivências e avaliações teóricas essenciais — justamente aquelas que transformam conhecimento em competência clínica.

Nesse contexto, impõe-se o ponto decisivo: para “encurtar” o curso, seria necessário retirar parte do currículo. Qual das cinco áreas deixaria de ser obrigatória? Pediatria? Ginecologia e obstetrícia? Medicina de família? Clínica médica? Cirurgia? A pergunta não é de natureza retórica: cabe aos legisladores e à sociedade definir que tipo de médico querem para atuar na linha de frente do SUS, no consultório particular e na saúde suplementar, e que lacunas formativas aceitam incorporar na prestação de assistência à saúde.

Há, ainda, um argumento frequentemente invocado: a aprovação em residência médica antes da conclusão da graduação. Embora seja um indicador importante de desempenho acadêmico, ela não torna alguém apto a exercer a profissão se a formação ainda não foi integralizada. Residência é treinamento especializado e progressivo em apenas uma especialidade; pressupõe que o médico já tenha concluído a base generalista com segurança mínima.

Ainda que o candidato esteja no 12º semestre — ou mesmo em semestre anterior — e obtenha excelente pontuação em avaliações, esse resultado não elimina a necessidade do cumprimento das práticas finais do internato médico. Essas atividades têm como um de seus objetivos consolidar o raciocínio clínico, as habilidades procedimentais, a tomada de decisão e a postura profissional em ambientes reais.

Posso citar, como exemplo, a situação de um médico cuja formação está incompleta, mas que obteve aprovação na residência em psiquiatria, sem, no entanto, vivenciar no internato o serviço de cardiologia. Ele, possivelmente, apresentará dificuldade em desempenhar bem os procedimentos práticos e teóricos, diante de um paciente com infarto agudo do miocárdio.

A tentação do atalho é compreensível, sobretudo em um contexto de ansiedade por oportunidades e por inserção mais rápida no mercado. No entanto, a medicina não é um campo onde se pode “pular etapas” sem consequências. O custo manifesta-se onde não deveria: no paciente, na família e no sistema de saúde, que passam a lidar com profissionais menos preparados para reconhecer situações de urgência, manejar complexidades, comunicar riscos e atuar com segurança em equipe multiprofissional.

Defender a integralidade da formação não significa punir estudantes; trata-se de proteger a sociedade e, igualmente, os próprios futuros médicos — que carregariam o peso emocional e jurídico de decisões tomadas sem vivência suficiente. Prova alguma, por melhor que seja, consegue aferir integralmente o que a prática prolongada supervisionada ensina: prudência, limites, responsabilidade e consistência diante do inesperado.

Definir quais recém-formados são proficientes, ou não, constitui uma obrigação oficial e social. A proficiência somente pode ser definida depois que o estudante recebe o título de graduado em medicina.

A discussão sobre colação de grau antecipada precisa, portanto, transcender o plano do interesse imediato e situar-se no terreno do interesse público. Formar médicos é, antes de tudo, formar guardiões da vida. E a vida não admite atalhos.

Sobre o autor

José Rocha é o reitor da Unichristus (Universidade Christus), no Ceará, onde conduz a instituição com foco em excelência acadêmica, inovação e formação de alto nível. À frente da universidade, ele também dá continuidade ao legado educacional do Colégio Christus, fortalecendo a tradição de qualidade que marca a rede há décadas.

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