Novas mensagens reveladas nesta terça-feira (25) indicam que o estudante de Medicina Edcley Teixeira teve acesso antecipado a pelo menos duas questões do Enem 2025 que não foram anuladas pelo Inep.
Os registros, extraídos de seu arquivo pessoal e anexados ao inquérito da Polícia Federal, mostram que ele enviou os enunciados oito meses antes da aplicação e orientou colegas a marcar as respostas corretas. A investigação segue em andamento e ainda não concluiu se houve violação de sigilo.
O episódio ocorre no momento em que o Enem 2025 enfrenta uma das maiores controvérsias recentes sobre segurança da prova. As suspeitas começaram após uma live no YouTube, exibida em novembro, mostrar itens muito semelhantes aos aplicados no exame. A coincidência levou o governo federal a anular três questões da edição.
Diante das denúncias, a Polícia Federal abriu investigação para apurar a origem das coincidências e possíveis irregularidades no processo de elaboração e sigilo dos itens. Desde então, o material apreendido em celulares e computadores de envolvidos tem ampliado o escopo da apuração.
As novas revelações encontradas
As mensagens obtidas apontam que Edcley enviou duas questões idênticas às que apareceram no Enem 2025, e que permanecem válidas, ainda em março e novembro. Ambas estão entre as conversas armazenadas em seu próprio arquivo pessoal.

Outro registro traz um exercício de química sobre diluição: uma solução de 10 L cujo resultado final indicado por Edcley é “5”. A questão é idêntica à aplicada no Enem e não figura entre as anuladas.
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Entenda como o estudante montou seu banco de questões pré-testadas
Segundo a apuração da MEM, as mensagens internas de Edcley detalham um método para reunir questões que poderiam futuramente cair no Enem. O processo ocorria em quatro etapas:
- Identificação de questões usadas no Prêmio CAPES Talento Universitário, uma prova que utiliza itens do banco de pré-testagem do Inep — etapa em que questões são aplicadas a grupos restritos de estudantes para medir dificuldade antes de entrarem no banco oficial.
- Incentivo para que calouros participassem do concurso, aumentando a chance de acessar mais itens.
- Pagamento pela memorização de questões, que variava a partir de R$ 10 por item recordado e repassado.
- Formação de um banco próprio de itens, que posteriormente seria oferecido em mentorias para outros estudantes interessados.
Após a aplicação do Enem 2025, Edcley recuperou conversas antigas e comemorou acertos com frases como:
“Sei que todos vocês acertaram kakakakakaka.”
“Se alguém errou, é porque não fez.”
As mensagens circulavam em grupos com centenas de participantes, segundo a apuração.
Em entrevista ao Fantástico, Edcley negou ter recebido ou compartilhado questões sigilosas. Ele afirma que todas as coincidências decorrem de conteúdos amplamente usados em atividades de pré-teste e que não teve acesso indevido ao banco de itens do Enem. Outras seis questões similares já haviam sido identificadas antes da prova.
Posição do Inep e do MEC
O Inep afirma que não pretende anular novas questões e que as coincidências encontradas até agora não comprometem a integridade técnica do Enem. Segundo o órgão, a memorização parcial de itens pré-testados não significa vazamento.
O presidente do Inep reiterou que não houve prejuízo aos candidatos, que o exame permanece válido e que o gabarito está mantido. O ministro da Educação, Camilo Santana, reforçou que o calendário segue inalterado.
O computador e o celular de Edcley foram apreendidos pela Polícia Federal, que ainda analisa a origem dos arquivos, os metadados das imagens e as datas de criação. O inquérito segue aberto e não há conclusão oficial.
O Inep encaminhou documentos técnicos e itens do banco de pré-teste para auxiliar na perícia. A CAPES e o MEC também colaboram com a investigação.
O que isso significa para os estudantes
O que é a anulação de uma questão?
Quando uma pergunta deixa de ser inédita antes da prova ou apresenta problemas técnicos, ela é descartada e não entra no cálculo da nota.
Por que essas duas questões continuam válidas?
Segundo o Inep, não há evidência suficiente para comprovar circulação pública ou violação de sigilo, por isso os itens seguem no exame.
Existe risco de novas anulações?
O órgão afirma que não. O conjunto de questões anuladas já está fechado.
Há impacto no SiSU?
Nenhum até o momento. As notas serão calculadas normalmente, e o cronograma permanece o mesmo.






