A polêmica que ganhou força nas redes sociais em relação ao vazamento do Enem 2025 reacendeu o debate sobre a segurança exame. Ao mesmo tempo, colocou em evidência uma avaliação pouco conhecida do grande público: a prova do Prêmio CAPES Talento Universitário. A coincidência entre itens usados no processo de testagem do Enem e questões que circulam em avaliações externas voltou a levantar dúvidas sobre protocolos, fiscalização e riscos de vazamentos.
Para compreender o cenário, é necessário analisar o que é a prova CAPES, como o INEP calibra as questões do Enem e quais são os precedentes históricos.
O que é a prova CAPES e o Prêmio CAPES Talento Universitário
A prova CAPES integra as ações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, órgão ligado ao Ministério da Educação. A avaliação compõe o Prêmio CAPES Talento Universitário, iniciativa que identifica estudantes de alto desempenho acadêmico no início da graduação.
Para participar, o estudante precisa ter feito o Enem no ano anterior e estar regularmente matriculado no ensino superior. Assim, a prova funciona como um diagnóstico do potencial acadêmico desses jovens e como ferramenta de estímulo à permanência e ao desenvolvimento científico.
A CAPES avalia os participantes com uma prova de 80 questões objetivas, abrangendo conteúdos do ensino médio. Após a correção, a instituição premia os mil melhores colocados, cada um com R$ 5 mil.
Entre esses prêmios, 50 vagas são reservadas para pessoas com deficiência, medida que reforça o compromisso da CAPES com inclusão e equidade. Além disso, o edital prevê a aplicação do exame sempre no início de dezembro, justamente para avaliar ingressantes do ensino superior antes do encerramento do ano letivo.
O programa busca valorizar talentos, mas também reforça a política nacional de incentivo à pesquisa. Dessa forma, a CAPES estimula que jovens de destaque permaneçam na vida acadêmica e desenvolvam trajetórias científicas, o que fortalece o sistema universitário.
Como o INEP testa as questões do Enem
O INEP administra toda a elaboração do Enem. Para garantir precisão estatística, ele utiliza a Teoria da Resposta ao Item (TRI). Essa metodologia exige que cada questão passe por pré-testes aplicados a grupos de estudantes antes de compor a prova oficial.
Durante esses pré-testes, o INEP mede parâmetros fundamentais: dificuldade, capacidade de discriminação e possibilidade de acerto ao acaso. Quando esses dados se confirmam dentro das margens desejadas, a questão entra para o Banco Nacional de Itens (BNI), o acervo sigiloso que abastece as provas anuais do exame.
A TRI também orienta a forma como o Enem calcula notas. Assim, candidatos com padrões de resposta consistentes tendem a alcançar pontuações mais altas, enquanto respostas incompatíveis com o nível de dificuldade penalizam o participante. Por isso, o processo de testagem se tornou indispensável: sem itens validados, o exame perde confiabilidade e compromete a seleção para universidades e programas federais.
Consequentemente, qualquer circulação de itens semelhantes aos pré-testados, mesmo fora do contexto do exame, gera preocupação institucional e pode indicar ruptura de segurança.
O vazamento das questões do Enem 2025
O Enem 2025 enfrentou uma crise poucos dias antes do segundo dia de provas. Edcley Teixeira, mencionado nas postagens dos vazamentos, trabalha com orientação para vestibulandos e diz cursar Medicina. De acordo com relatos de usuários, ele mostrou as questões em uma live transmitida na semana que antecedeu o exame. A live repercutiu de maneira imediata e alcançou milhões de visualizações, o que pressionou o Ministério da Educação a agir.
O INEP analisou o conteúdo e concluiu que as questões exibidas não eram réplicas exatas das aplicadas no Enem. Entretanto, o instituto identificou semelhanças relevantes no formato, no nível de exigência e na abordagem dos conteúdos.
Assim, decidiu anular três questões do Enem 2025 por risco de quebra de sigilo. Em seguida, o MEC acionou a Polícia Federal, que passou a investigar a origem dos itens exibidos, a forma como chegaram ao estudante e eventuais responsabilidades criminais.

A suspeita ganhou força porque alguns influenciadores afirmaram que as questões poderiam ter origem em provas usadas para pré-testagem do INEP ou em avaliações externas que utilizam materiais semelhantes.
Essa possibilidade não afasta o risco, pois a reprodução indevida de itens vinculados ao processo de construção do Enem compromete a integridade do exame.
A anulação das três questões criou impacto imediato. Candidatos questionaram se haveria prejuízo no cálculo das notas e se o episódio poderia afetar a confiança no processo seletivo. Nesse contexto, o INEP reforçou que o restante da prova permaneceu íntegro e que a apuração continuaria até esclarecer completamente o caso.
Casos antigos de vazamentos no Enem
O histórico do Enem mostra que episódios de vazamento não representam novidade. Em 2011, o MEC enfrentou um dos casos mais emblemáticos. Uma escola de Fortaleza distribuiu apostilas que continham dez questões idênticas e uma muito semelhante às que entraram na prova oficial daquele ano.
Depois das denúncias, o INEP investigou o caso, retirou as notas dos alunos envolvidos e acionou a Polícia Federal. Na época, o professor responsável chegou a ser condenado, embora posteriormente tenha recorrido.
Além desse caso, investigações anteriores, como o episódio de 2016, quando conteúdos chegaram ao conhecimento de grupos específicos antes da prova, reforçaram a necessidade de atualização constante dos protocolos de segurança.
Dessa forma, o INEP aprimorou o sigilo do BNI, revisou rotinas de armazenamento e criou fluxos mais rigorosos de monitoramento.
Mesmo assim, o incidente de 2025 mostra que o risco permanece. O alto volume de pré-testes, a necessidade de parceiros externos e a circulação de itens entre diferentes instituições criam um ambiente complexo e vulnerável a falhas humanas.
A prova CAPES e o Enem pertencem a políticas públicas distintas, mas se conectam pela importância da testagem de itens e pela necessidade de manter sigilo absoluto em avaliações nacionais.
















