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Receitas com desenhos ajudam pacientes analfabetos a seguir tratamento em Pernambuco

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Receitas para pacientes analfabetos
Receitas com desenhos ajudam pacientes do SUS a entender tratamentos e reduzir erros no uso de medicamentos.

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Um médico da atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS) em Petrolina, no Sertão de Pernambuco, adotou receitas com desenhos para orientar pacientes analfabetos que têm dificuldade para seguir o tratamento prescrito. A iniciativa foi desenvolvida por Lucas Cardim após ele identificar que parte dos pacientes tinha acesso à consulta e aos medicamentos, mas não conseguia compreender as orientações escritas.

A experiência deu origem à plataforma Cuidado para Todos, criada com o engenheiro de software Davi Rios, e já está em uso em mais de dez municípios e três distritos indígenas.

A proposta surgiu a partir de uma dificuldade recorrente observada no consultório. Segundo Cardim, o problema não estava necessariamente na oferta de atendimento, mas na impossibilidade de uma parcela dos pacientes entender como usar corretamente os remédios receitados.

“O Brasil é um país muito desigual. Quando cheguei ao consultório, encontrei um abismo. Muitas vezes, o paciente tinha acesso ao medicamento e à consulta, mas não conseguia se tratar porque não conseguia entender. Então, para mim, foi chocante, porque a gente tem a ideia de que muitos adoecimentos acontecem pela falta de acesso. Nesse caso, existe o encontro, só não existe a comunicação entre o profissional de saúde e o paciente”, afirmou.

No início, o médico passou a registrar orientações visuais diretamente nas receitas para indicar horários e quantidades dos medicamentos. A estratégia foi criada como forma de tornar a prescrição compreensível para pacientes com analfabetismo ou letramento rudimentar, especialmente em casos de doenças crônicas que exigem acompanhamento contínuo e uso correto da medicação.


Cuidado para Todos

A partir dessa experiência, Cardim desenvolveu, em parceria com Davi Rios, a plataforma Cuidado para Todos. O sistema reúne medicamentos de uso frequente na atenção primária e permite que o profissional de saúde associe ícones padronizados às orientações da receita antes da impressão.

Além da prescrição, a ferramenta também possibilita a impressão de símbolos para identificação nas embalagens dos medicamentos. A proposta é reforçar a compreensão do tratamento por parte do paciente e reduzir erros no uso da medicação.

Segundo os responsáveis pelo projeto, a plataforma já foi implementada em mais de dez municípios e em três distritos indígenas. A intenção é que a tecnologia seja oferecida gratuitamente e possa ser incorporada ao SUS, inclusive no Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), sistema utilizado atualmente na emissão de receitas na rede pública.

Um dos casos citados por Cardim é o de uma paciente idosa com diabetes que apresentava sucessivas internações por descontrole glicêmico.

“Não é só entregar a receita. A gente ensinou ela a utilizar a caneta de insulina, a gente ensinou ela a fazer a troca das agulhas para a medição de glicemia com a maquininha. Pouco a pouco, ela foi fazendo equilíbrio glicêmico e hoje em dia está super bem. É uma paciente muito querida”, disse.

Cardim afirma que a iniciativa tenta responder a uma barreira estrutural no acesso ao cuidado.

“É muito pesado você ter uma população condenada a não ter tratamento porque não sabe ler. É muito pesado você pensar que uma mãe não soube usar um dispositivo para tratar a asma do filho porque não sabe ler. Isso não pode acontecer”, declarou.

Davi Rios é outro que defende a ampliação da ferramenta na rede pública.

“A gente veio dessa região, sabe como é difícil o dia a dia das pessoas. Tivemos acesso ao estudo, estudamos em escola pública, universidade pública. Sinto que tenho que devolver às pessoas aquilo que elas me deram. Queremos essa ferramenta na mão do maior número de pessoas possível”, afirmou.

Médicos criam receitas com desenhos para ajudar pacientes analfabetos a entender e seguir corretamente o tratamento.

Dados do IBGE

De acordo com os resultados do Censo Demográfico de 2022, 11,4 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais não sabiam ler nem escrever um bilhete simples.

O número evidencia que o esse tipo de problema ainda atinge uma parcela expressiva da população e ajuda a dimensionar o desafio enfrentado por pacientes analfabetos que dependem de “receitas personalizadas” para seguir tratamentos médicos.

Acolhimento por meio do SUS

O Ministério da Saúde informou que disponibiliza ferramentas para apoiar profissionais do SUS no acolhimento, no atendimento e na orientação de pessoas com baixo nível de letramento.

Segundo a pasta, houve avanço na produção e na oferta de pictogramas organizados de acordo com padronizações estabelecidas por órgãos reguladores.

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