As redações nota mil do Enem viveram seu auge há mais de dez anos atrás, em 2011, onde foram computadas 3.691 redações com nota máxima. Este foi o maior número já visto na história do exame. No entanto, o auge não durou muito e o declínio começou pouco tempo depois.
Em 2012, o número de redações baixou para 1488, uma quantidade já significativa se comparada ao ano anterior. Mas foi realmente em 2013 que o boom foi maior. Nesta edição, somente foram observadas 221 redações com nota máxima, uma queda de mais de 80% em relação à 2012. Mas o que realmente explica essa taxa?
Uma pesquisa realizada pelo Adobe trouxe dados importantes a serem analisados para essa discussão.

O fim das notas mil do Enem
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep)anunciou mudanças na edição daquele ano. Uma delas, por exemplo, realizadas na competência 1. Em 2012, o guia do estudante exigia o domínio da norma padrão da língua escrita. No ano seguinte, por sua vez, a mesma competência exigia que o domínio fosse da modalidade escrita formal.
Quando falamos, parece que nem existe uma diferença real entre as duas, certo? Mas a discrepância entre elas se encontra nos detalhes. Enquanto a norma padrão é mais flexível, usada em textos menos formais e aceita na comunicação escrita mais cotidiana, a norma culta age ao contrário.
Ela está ligada diretamente ao uso mais rigoroso das regras gramaticais: ou seja, nela é necessário que a pronúncia, a ortografia e concordância estejam alinhadas aos contextos formais, como textos acadêmicos e, desde 2013, redação do Enem.

A mudança, então, pode parecer ter sido sútil e talvez nem seja vista, por alguns, como algo catalisador para o decaimento das redações. Mas, se o estudante não prestou atenção nesse detalhe, a pontuação correu o risco de uma nota menor.
Mas, além desses, outros fatores também podem ter contribuído para essa oscilação, como o surgimento de novas diretrizes pedagógicas, fim da média amigável e mudança na forma como os estudantes se preparam para o exame.
Mesmo sendo algo não dito, essa mudança apresentou um fato: as correções das redações dos anos anteriores tinham um padrão mais estável, permitindo com que muitos estudantes conseguissem tirar a nota máxima da redação. Mas, com as mudanças, o preparo para o Enem precisou ser mais focado e específico para atingir as melhores colocações.
Acesso digital não converte redação em nota mil
Embora seja pensado que com o acesso universal a conteúdos de redação e cursos (mesmo online) focados especificamente nessa área as redações com nota máxima sejam mais frequentes, este é um lado não observado com o uso da Internet.
Professores de todo o país e avaliadores do Inep tem notado, nos últimos anos, que o avanço tecnológico não se converteu necessariamente em escritas excelentes. Ainda mais perceptível quando o uso recorrente de estruturas pré-fabricadas é utilizado pelo estudante, reproduzindo fórmulas que geram os famosos textos Frankenstein.

Esses textos, pela fórmula feita, são montados a partir de “pedaços” de outros textos, não possuindo, portanto, coesão ou argumento claro.
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Redações notas mil pelo país (1998-2024)
Existem três estados que seguem liderando a participação no total de notas 1000 do país: respectivamente São Paulo (5.187), Rio de Janeiro (3.595) e Minas Gerais (2.149). Quando olhamos para a região, quem lidera o ranking é o Sudeste, seguido pelo Nordeste e Sul.

Quanto às cidades especificamente, o top 10 está composto por capitais e cidades do interior. Sendo, respectivamente:
- São Paulo (SP) – 5.187 notas mil
- Rio de Janeiro (RJ) – 3.595 notas mil
- Salvador (BA) – 913 notas mil
- Belo Horizonte (MG) – 868 notas mil
- Fortaleza (CE) – 567 notas mil
- Campinas (SP) – 547 notas mil
- Curitiba (PR) – 496 notas mil
- Belém (PA) – 487 notas mil
- Porto Alegre (RS) – 412 notas mil
- Goiânia (GO) – 362 notas mil
Nordeste cresce em redações nota mil

Nos últimos anos, a região Nordeste vem crescendo na apresentação de notas máximas na redação do Enem. De acordo com a pesquisa da Adobe, entre os primeiros anos do exame (1998-2005) a região representava somente 12,4% das notas mil.
Mas, entre 2006 e 2012, a porcentagem aumentou e chegou a representar 33,3% das notas, com destaque regional para o Ceará e Maranhão. E, mesmo com as mudanças pós-2013, a região continuou crescendo e, entre os anos seguintes, detinha 34,7% do total nacional.
Candidato nota mil atualmente
Hoje, o perfil de um candidato nota 1000 no Enem se distancia dos repertórios de bolso e da reprodução de fórmulas básicas.
Quem se destaca entre os avaliadores é aquele que articula sua dissertação com um repertório vivo, atualizado e pertinente ao tema. Além disso, a leitura analítica da proposta, juntamente com a estruturação do argumento com estratégia e constância mantém a régua avaliadora em seu nível mais alto.
Mais do que simplesmente seguir modelos, a redação do Enem quer estudantes que demonstrem domínio autoral (e cultural), precisão da língua e capacidade de reflexão.
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