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Resumo de Retinoblastoma: epidemiologia, fisiopatologia, manifestações clínicas, diagnóstico e mais!

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Resumo médico retinoblastoma
Resumo técnico de Retinoblastoma: tumor ocular maligno da infância. Diagnóstico precoce garante cura >90% e preservação da visão.

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O retinoblastoma é o tumor intraocular maligno mais comum da infância, responsável por cerca de 3% das neoplasias pediátricas. Apesar de raro, seu impacto é profundo: ameaça a vida, a visão e traz sérias implicações psicossociais. O diagnóstico precoce é crucial para garantir altas taxas de cura (>90%) e maior chance de preservar o olho e a visão.

Nos últimos anos, avanços em diagnóstico molecular e terapêuticas conservadoras revolucionaram o manejo. Este artigo revisa, de forma objetiva, o que todo estudante e médico precisa saber sobre retinoblastoma.

Definição

O retinoblastoma é um tumor maligno que se origina das células precursoras da retina em desenvolvimento. Estas células, que normalmente se diferenciariam em fotorreceptores e outras células retinianas, sofrem transformação maligna devido a alterações genéticas específicas.

Este tumor representa uma emergência oftalmológica e oncológica, pois, se não tratado, pode crescer e invadir estruturas adjacentes, inclusive o nervo óptico, levando à cegueira, disseminação para o sistema nervoso central e metástases sistêmicas.

Retinoblastoma

Etiologia

A causa fundamental do retinoblastoma reside na inativação bialélica (perda de função de ambas as cópias) do gene supressor de tumor RB1. A proteína codificada por este gene, conhecida como proteína do retinoblastoma (pRB), desempenha papel crucial como reguladora negativa do ciclo celular.

Quando ambos os alelos do gene RB1 são inativados, a proteína pRB funcional não é produzida ou é disfuncional, impulsionando a célula a proliferar de maneira descontrolada, culminando na formação do tumor.

O retinoblastoma classifica-se em duas formas principais com base na origem da mutação no gene RB1:

  • Retinoblastoma Hereditário (Germinativo): Corresponde a 40-45% dos casos. A primeira mutação no RB1 está presente em todas as células do corpo (germinativa), podendo ser herdada ou surgir de novo. Caracteriza-se por:
    • Doença frequentemente bilateral e/ou multifocal.
    • Diagnóstico mais precoce (mediana de 12 meses).
    • Risco aumentado de tumores secundários (osteossarcomas, pinealoblastoma – configurando a síndrome do retinoblastoma trilateral).
    • Transmissão autossômica dominante com alta penetrância (cerca de 90%).
  • Retinoblastoma Não Hereditário (Esporádico Somático): Corresponde a 55-60% dos casos. Ambas as mutações no RB1 ocorrem somaticamente em uma única célula da retina. Caracteriza-se por:
    • Doença geralmente unilateral e unifocal.
    • Diagnóstico um pouco mais tardio (mediana de 24 meses).
    • Sem risco aumentado de tumores secundários.
    • Não é transmitido hereditariamente.

Em raros casos (cerca de 2%), o retinoblastoma pode se desenvolver por mecanismos independentes do RB1, como a amplificação do oncogene MYCN.

Epidemiologia

Incidência, Prevalência, Distribuição Geográfica

A incidência global do retinoblastoma é estimada em aproximadamente 1 caso a cada 15.000-20.000 nascidos vivos, resultando em cerca de 8.000 novos casos diagnosticados anualmente em todo o mundo. No Brasil, um estudo populacional abrangente publicado em 2022 encontrou uma incidência de 2,23 casos por milhão para a faixa etária de 0-14 anos. Especificamente para a faixa etária de maior risco, de 0 a 4 anos, a incidência no Brasil foi de 7,02 casos por milhão.

O retinoblastoma ocorre em crianças de todas as etnias e em todas as partes do mundo. No entanto, existe uma marcante variação regional no Brasil: a taxa de incidência para crianças de 0-4 anos foi de 11,26 por milhão na região Nordeste, contrastando com 5,25 por milhão na região Centro-Oeste.

Fatores de Risco

  • Mutação germinativa no gene RB1: principal fator.
  • História familiar positiva de retinoblastoma.
  • Fatores socioeconômicos e geográficos: associados a diagnóstico tardio e pior prognóstico, não à mutação em si.

Fisiopatologia

A fisiopatologia do retinoblastoma inicia-se com a inativação bialélica do gene RB1 em uma célula precursora da retina, provavelmente um precursor de cone. 

A proteína pRB funcional atua como um “freio” molecular, ligando-se a fatores de transcrição da família E2F e impedindo a progressão do ciclo celular da fase G1 para a S. Sem pRB funcional, os fatores E2F são liberados, promovendo a transcrição contínua de genes que impulsionam a proliferação celular descontrolada, culminando na formação do tumor. 

Processos celulares e moleculares envolvidos incluem:

  1. Instabilidade Genômica: A perda da função da pRB compromete os mecanismos que mantêm a integridade do genoma, levando a um aumento da taxa de mutações e rearranjos cromossômicos.
  2. Alterações Genômicas Adicionais: Além da inativação do RB1, alterações frequentes incluem amplificação de oncogenes como MYCN, E2F3, DEK e MDM4, bem como alterações em genes supressores de tumor como CDH11 e p75NTR.
  3. Evasão da Apoptose: As células do retinoblastoma desenvolvem mecanismos para evitar a morte celular programada, como superexpressão de proteínas antiapoptóticas e ativação de vias de sinalização de sobrevivência.
  4. Angiogênese Tumoral: Para sustentar seu crescimento, as células tumorais secretam fatores pró-angiogênicos como o VEGF, estimulando a formação de novos vasos sanguíneos.

Progressão tumoral

Inicialmente pode haver retinoma (benigno), que evolui para malignidade com alterações adicionais e pode seguir:

  • Crescimento Endofítico: O tumor cresce para dentro da cavidade vítrea, com possível semeadura vítrea.
  • Crescimento Exofítico: O tumor cresce em direção ao espaço sub-retiniano, causando descolamento de retina.
  • Crescimento Misto: Combinação de componentes endofíticos e exofíticos.
  • Retinoblastoma Infiltrante Difuso: Forma menos comum onde o tumor cresce de maneira plana.

Quadro Clínico

Os dois sinais de apresentação mais frequentes do retinoblastoma são:

  • Leucocoria (60-80% dos casos): Classicamente descrita como “reflexo do olho de gato” ou “pupila branca”. Ocorre devido à reflexão da luz diretamente da superfície esbranquiçada do tumor. Frequentemente notada pelos pais em fotografias tiradas com flash.
  • Estrabismo (20-30% dos casos): Desalinhamento ocular que surge quando o tumor afeta a visão central ou causa descolamento de retina, levando à perda da capacidade de fixação do olho afetado.

Manifestações de alerta/gravidade (menos comuns e/ou mais tardias)

  • Sinais inflamatórios: Olho vermelho, dor ocular e inflamação intraocular.
  • Proptose: Abaulamento do globo ocular (sinal tardio que indica doença avançada).
  • Buftalmia: Aumento do tamanho do globo ocular, geralmente devido a glaucoma secundário.
  • Dor de cabeça, vômitos, irritabilidade: Possíveis sinais de hipertensão intracraniana por disseminação para o SNC.

Diagnóstico

Anamnese e Exame Clínico

Uma história clínica detalhada deve incluir:

  • Início, duração e progressão dos sinais ou sintomas (leucocoria, estrabismo, olho vermelho).
  • História familiar de retinoblastoma ou outros tipos de câncer relacionados.
  • Revisão de fotografias anteriores da criança (podem revelar leucocoria precoce).

No exame físico, o teste do reflexo vermelho deve sempre ser realizado durante as visitas de puericultura, além daquele que é realizado na maternidade. Se for identificada alguma alteração no reflexo (reflexo esbranquiçado ou acinzentado pode ser sinal de um retinoblastoma) ou se houver alguma dificuldade de realizar o teste, a criança deverá ser encaminhada ao oftalmologista. 

Exames de Imagem

  • Ultrassonografia Ocular (Modos A e B): Frequentemente o primeiro realizado, detecta massa intraocular sólida e calcificações intralesionais, mede dimensões do tumor e avalia descolamento de retina associado.
  • Ressonância Magnética (RM) Orbitária e Cerebral com Contraste: Método de escolhapara avaliação detalhada e estadiamento. Avalia invasão do nervo óptico, coroide, esclera e tecidos orbitários e detecta disseminação intracraniana.
  • Tomografia Computadorizada (TC) Orbitária: Deve ser evitada, pois a radiação está associada à formação de outros tumores em pacientes com a forma hereditária. Considerada apenas quando RM não está disponível.

Exames Laboratoriais

  • Testes Genéticos: Essenciais. Realizados no sangue periférico para identificar mutações germinativas no RB1 (confirma forma hereditária) e, se houver enucleação, no tecido tumoral. 
  • Biópsia Líquida do Humor Aquoso: Técnica emergente, analisa DNA tumoral livre no humor aquoso para detectar mutações (RB1, MYCN), monitorar resposta terapêutica e prognóstico.
  • Biópsia Tumoral Direta: Geralmente contraindicada devido ao risco de disseminação.
  • Análise do LCR e Biópsia de Medula Óssea: Indicados para estadiamento em suspeita de doença extraocular.

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Tratamento

Objetivo

O tratamento é multidisciplinar e individualizado, visando  salvar a vida em primeiro lugar, preservar o globo ocular e a visão útil sempre que possível e minimizar complicações e efeitos tardios.

Tratamento Farmacológico

Quimioterapia Sistêmica (Quimiorredução): Reduz o volume tumoral para permitir tratamentos locais subsequentes.

Quimioterapia Locorregional:

  • Quimioterapia Intra-arterial (QIA): Cateterização superseletiva da artéria oftálmica e infusão de agentes quimioterápicos. Tem altas taxas de salvamento ocular (>95% em casos selecionados).
  • Quimioterapia Intravítrea (QIV): Injeção de quimioterápicos diretamente no vítreo. É direcionada especificamente para semeadura vítrea ativa ou recorrente e requer técnica meticulosa para evitar disseminação extraocular.

Terapias Focais (Consolidação)

Fotocoagulação a Laser/Termoterapia Transpupilar: Utiliza laser infravermelho para aquecer e destruir o tumor; ideal para tumores pequenos no polo posterior.

Crioterapia: Aplicação de frio extremo na superfície externa da esclera; adequada para tumores periféricos.

Braquiterapia: Colocação cirúrgica de placa radioativa (I-125, Ru-106) sobre a base do tumor; opção para tumores de tamanho médio ou recorrentes.

Tratamento Cirúrgico

Enucleação (Remoção do Globo Ocular): Indicada para tumores grandes, glaucoma neovascular, falha de tratamentos conservadores, ou suspeita de invasão extensa. Um implante orbitário é colocado para resultado cosmético.

Manejo de Suporte e Sintomático

Inclui manejo de efeitos colaterais da quimioterapia (mielossupressão com G-CSF, transfusões; ototoxicidade; nefrotoxicidade; neurotoxicidade), complicações da QIA/QIV e da radioterapia. Suporte psicossocial e reabilitação visual são cruciais.

Complicações e prognóstico

  • Complicações: Perda visual, necessidade de prótese ocular, metástases, neoplasias secundárias (principalmente após radioterapia), desfiguração, dor ocular crônica.
  • Prognóstico: Sobrevida >90% em centros especializados para doença intraocular. Pior em casos extraoculares ou com diagnóstico tardio.

Conclusão

O retinoblastoma é um paradigma na oncogenética e um desafio contínuo na oncologia pediátrica. A compreensão de sua base molecular no gene RB1 e a distinção entre formas hereditárias e não hereditárias são cruciais para o manejo clínico, que evoluiu para abordagens multimodais focadas na preservação da vida, do olho e da visão.

O diagnóstico precoce, impulsionado pelo reconhecimento de sinais como leucocoria e estrabismo e pela triagem com o “Teste do Olhinho”, é o fator mais crítico para um bom prognóstico. 

Para médicos e futuros médicos, a vigilância, o conhecimento atualizado e uma abordagem multidisciplinar são essenciais para oferecer o melhor cuidado possível a crianças com retinoblastoma.

Sobre a autora

Dra. Olyvian Spontan

Olyvia Spontan é médica formada pela Universidade Tiradentes (UniT) em 2022, com formação sanduíche na UPAEP (Universidad Popular Autónoma del Estado de Puebla – México) – ano de 2016.

Atua como médica reguladora e tem experiência em regulação de urgências e regulação de leitos. Além disso, é entusiasta da tecnologia, aliada à IA para redação de textos médicos, dos quais hoje é revisora.

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