Um surto recente do vírus Nipah no estado de Bengala Ocidental, na Índia, onde 5 casos foram confirmados recentemente, reacendeu o alerta das autoridades de saúde internacionais. Raro e altamente letal, o vírus ainda não possui vacina ou tratamento específico, e esses fatores levam a levantar uma pergunta: há risco real de uma nova pandemia ou de a doença chegar ao Brasil?
O que é o vírus Nipah e por que ele preocupa?
O vírus Nipah é um patógeno zoonótico, ou seja, circula entre animais e pode ser transmitido aos humanos. O principal reservatório são morcegos frugívoros do gênero Pteropus, comuns em países do Sul e Sudeste da Ásia. A infecção humana pode ocorrer pelo contato com secreções desses animais, pelo consumo de frutas contaminadas ou por meio de animais intermediários.
Em humanos, o vírus pode causar desde sintomas leves até quadros gravíssimos. Os sinais iniciais costumam ser febre, dor de cabeça, mal-estar e dificuldade respiratória. Nos casos mais severos, há comprometimento do sistema nervoso central, com encefalite, convulsões, coma e alto risco de morte.
A taxa de letalidade varia entre 45% e 75%, muito superior à observada na Covid-19 no início da pandemia, o que explica o nível de alerta sempre que novos casos surgem.
O que dizem os especialistas
Após a repercussão das notícias sobre novos casos de infecção pelo vírus Nipah, surgem dúvidas se teremos uma nova pandemia. Segundo a infectologista Mariela Cometki, o receio global diante de novos registros do vírus é compreensível.
“É importante lembrar que esse não é um vírus novo. Sempre que ele reaparece, causa desconforto e angústia porque é raro e tem altíssima letalidade”, explica Mariela.
Ela destaca que um dos pontos mais preocupantes é a capacidade de transmissão entre pessoas.
“O Nipah é um vírus zoonótico, mas o humano infectado pode transmitir para outro humano sem a necessidade de um animal intermediário. É aí que a situação começa a assustar”, afirma a infectologista.
Dentro do organismo, o vírus provoca uma reação inflamatória intensa, especialmente no sistema nervoso central, além de causar encefalite que progride de forma agressiva e, na maioria dos casos, é fatal, mesmo quem sobrevive pode ficar com sequelas neurológicas e cognitivas graves, diz a especialista.
Mariela reforça que não há vacina nem tratamento específico contra o vírus e o quê temos que ter é informação, vigilância, diagnóstico rápido e contenção rigorosa dos casos. “A chance de uma pandemia existe, mas é pequena, porque a transmissão direta exige contato íntimo e prolongado”, conclui ela.
Há risco real de uma nova pandemia?
Para o infectologista Matheus Todt, a possibilidade de uma pandemia global causada pelo vírus Nipah é considerada pouco provável.
“O vírus circula na Ásia desde 1999 e, até hoje, só provocou pequenos surtos regionais”, explica Matheus.
Ele ressalta que a forma de transmissão limita a disseminação em larga escala, e que a principal via é o consumo de alimentos contaminados. “A transmissão direta de pessoa para pessoa é rara”, afirma o infectologista.
O vírus pode chegar ao Brasil?
Embora não haja casos registrados nas Américas, os especialistas não descartam a possibilidade de casos importados.
“O vírus eventualmente pode chegar ao Brasil, porque não existem barreiras absolutas que impeçam a entrada de um infectado”, diz Matheus Todt.
De acordo com os especialistas os fatores como a transmissibilidade reduzida entre humanos, a necessidade de contato próximo e prolongado e a capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) para vigilância e rastreamento ajudarão a conter a propagação, caso ela chegue ao Brasil.
Como ocorre a transmissão do vírus Nipah
A infecção pode acontecer por diferentes vias:
- contato com secreções de morcegos infectados;
- ingestão de frutas ou alimentos contaminados;
- transmissão entre humanos, principalmente em ambientes hospitalares sem uso adequado de equipamentos de proteção individual (EPIs).
No surto atual da Índia, profissionais de saúde foram infectados após o diagnóstico tardio dos primeiros casos, o que reforça o risco ocupacional e a importância da identificação precoce.
Como o Brasil deve se preparar
Entre as principais medidas recomendadas estão:
- barreiras sanitárias em aeroportos, especialmente para viajantes de regiões com surto;
- capacidade diagnóstica rápida, com testes PCR específicos;
- protocolos claros de isolamento e contenção;
- uso rigoroso de EPIs em hospitais, sobretudo em pacientes com encefalite de causa desconhecida;
- vigilância sanitária sobre alimentos importados, como frutas.
Sinais de alerta do vírus Nipah
Sintomas mais comuns:
- febre
- dor de cabeça
- dor no corpo e mal-estar
- dificuldade respiratória
Casos graves podem apresentar:
- sonolência excessiva
- convulsões
- alterações neurológicas
- coma
Viajantes que retornem de áreas com surto e apresentem esses sintomas devem procurar atendimento médico imediatamente.





