Cerca de 78 mil pessoas aguardam por transplante de algum órgão no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde de 2025. Desse total, pacientes à espera de um novo rim ocupam 85% da lista.
Uma das alternativas que cientistas investigam para enfrentar esse problema é o xenotransplante, procedimento em que médicos modificam um órgão animal para transplantá-lo em um ser humano. Pesquisadores de diversos países, incluindo o Brasil, se dedicam ao desenvolvimento da técnica.
Quem são os doadores?
As pesquisas mais avançadas na área utilizam porcos como doadores. Esses animais apresentam características vantajosas para o procedimento: seus órgãos têm tamanhos semelhantes aos humanos, além de anatomia e fisiologia mais compatíveis, o que facilita a aceitação do transplante.
Outro fator determinante para a escolha dos suínos, em detrimento de animais geneticamente mais próximos dos humanos, como os primatas, são as questões éticas que envolvem a criação de primatas para esse fim. A facilidade de criação dos porcos e o maior controle sobre esses animais também pesam na decisão.
Iniciativas bem-sucedidas
Em 2024, pesquisadores chineses conseguiram, pela primeira vez, transplantar com sucesso um pulmão de porco geneticamente modificado em um ser humano. A revista Nature Medicine publicou os resultados.
O paciente era um homem de 39 anos com morte encefálica declarada. Com autorização dos familiares, a equipe médica realizou o procedimento e o pulmão permaneceu funcional por 216 horas. Os pesquisadores consideraram a cirurgia um sucesso, especialmente porque xenotransplantes de pulmão figuram entre os procedimentos mais complexos e inéditos da medicina.
Os rins e o coração lideram o histórico de aceitação pelo organismo nessa técnica. Também em 2024, o médico brasileiro Leonardo Riella liderou a equipe que realizou o primeiro transplante de rim de porco geneticamente modificado em um paciente humano vivo, no Massachusetts General Hospital, em Boston, nos Estados Unidos.

Edição genética
Tanto o xenotransplante realizado na China quanto o conduzido nos Estados Unidos compartilham uma característica fundamental: as equipes alteraram geneticamente o animal doador para tornar o órgão mais compatível com o receptor humano.
No procedimento, os cientistas removem genes suínos que poderiam desencadear rejeição e inserem genes que favorecem a aceitação do órgão. Essas modificações ocorrem ainda na fase embrionária do animal.
A edição genética também busca inativar doenças que podem migrar do doador ao receptor. No transplante de Boston, a equipe inativou retrovírus endógenos suínos no órgão antes de transplantá-lo em Richard Slayman, de 62 anos, que enfrentava doença renal em estágio avançado, reduzindo assim os riscos de infecção.
Possíveis riscos
Além da ameaça de infecções, o xenotransplante ainda enfrenta outras barreiras para sua aplicação em larga escala. Órgãos suínos podem interagir com hormônios humanos de crescimento e mudar de tamanho de forma inesperada, além dos já conhecidos problemas de compatibilidade que também afetam transplantes tradicionais.
Para contornar esses obstáculos, os pesquisadores seguem desenvolvendo técnicas de edição genética e aprimorando o uso de imunossupressores, que ajudam a viabilizar a técnica.
Apesar dos inúmeros desafios que ainda impedem o xenotransplante de se consolidar como solução definitiva, as pesquisas avançam e trazem esperança aos milhares de pacientes que aguardam por órgãos compatíveis para aumentar sua expectativa de vida.
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