Recentemente, um episódio em rede nacional durante o Big Brother Brasil (BBB) chamou a atenção da comunidade médica e leiga: um participante, submetido a uma prova de resistência, apresentou um episódio de perda de consciência com abalos motores.
Embora o diagnóstico final daquele caso específico caiba à equipe assistente, o cenário ilustra perfeitamente um conceito fisiológico fundamental para o médico emergencista: o Limiar Convulsivo.
Nem toda crise convulsiva equivale a epilepsia. O cérebro humano, sob condições extremas de privação de sono, estresse físico/mental intenso, distúrbios hidroeletrolíticos ou uso de substâncias, pode ter seu limiar de excitabilidade neuronal reduzido a ponto de deflagrar uma crise. Chamamos isso de Crise Sintomática Aguda (ou Provocada).
No entanto, na Sala Vermelha, a etiologia inicial é secundária à estabilização. O emergencista deve estar preparado para o pior cenário: o Estado de Mal Epilético (EME). A condução inadequada nos primeiros minutos define o prognóstico neurológico do paciente.
Este artigo revisa a conduta técnica baseada nas diretrizes da International League Against Epilepsy (ILAE 2015), American Epilepsy Society (AES 2016) e no divisor de águas, o estudo ESETT (2019).
Definições Operacionais: O Conceito de ‘Tempo é Cérebro’ (ILAE 2015)
Historicamente, definia-se Estado de Mal Epilético como uma crise durando mais de 30 minutos. Para a emergência, essa definição é perigosa e obsoleta. Esperar 30 minutos para agir agressivamente resulta em lesão neuronal irreversível.
A ILAE 2015 redefiniu o EME baseada em dois pontos temporais operacionais (t1 e t2) para o Estado de Mal Convulsivo Generalizado:
- Tempo t1 (5 minutos): É o momento em que a crise é considerada “anormalmente prolongada”. A maioria das crises autolimitadas cessa em 2 a 3 minutos. Se passou de 5 minutos, é improvável que pare sozinha. Ação: Iniciar tratamento farmacológico imediato, considerar Estado de Mal Epilético.
- Tempo t2 (30 minutos): É o momento em que se inicia o risco de sequelas neuronais a longo prazo (morte neuronal, excitotoxicidade, alteração de redes neurais). Meta: A crise deve ser abortada antes de atingir esse tempo.
Dica Prática: Não espere 30 minutos. Se o paciente chegou em crise e o relato é de que “começou em casa” ou se você presenciou a crise por 5 minutos, trate como Estado de Mal.
Abordagem Inicial (Estabilização 0-5 minutos)
Nesta fase, o objetivo é garantir suporte vital básico e identificar causas reversíveis imediatas.
ABCDE e Segurança:
- Vias aéreas: Posicione o paciente em decúbito lateral (se possível) e aspire secreções para evitar broncoaspiração.
- Respiração: Forneça O2 a 100% (máscara não reinalante), oximetria.
- Monitorização: Frequência cardíaca + ECG, oximetria e pressão arterial.
- Acesso Venoso: Garanta dois acessos periféricos calibrosos. Se não conseguir em < 2 minutos, prepare-se para acesso intraósseo (IO).
- HGT (Glicemia Capilar):Passo Crítico. A hipoglicemia é a causa metabólica mais comum e tratável de convulsão.
- Se HGT < 60 mg/dL: Administre Glicose 50% IV (+ Tiamina se pacientes alcoólatras/desnutridos).
“Primeira Linha”: Fase 1 – Terapia de Resgate (Minutos 5-20)
Se a crise persiste após 5 minutos (ou se o paciente chega em crise persistente), já é considerado Estado de Mal Epilético e iniciamos a terapia com Benzodiazepínicos (BZD).
Segundo a diretriz da AES 2016 e o estudo RAMPART, a eficácia do tratamento depende de doses adequadas. Um erro comum na emergência é o “subtratamento” (ex: fazer apenas 5mg de Diazepam em um adulto de 80kg). Isso causa depressão respiratória sem parar a crise.
As opções de Nível A de evidência são:
- Midazolam IM (Intramuscular):
- Dose: 10 mg (para pacientes > 40kg).
- Contexto: Opção de escolha quando não há acesso venoso imediato. O estudo RAMPART mostrou que o Midazolam IM é não-inferior (e é logisticamente mais rápido) que o Lorazepam IV no pré-hospitalar.
- Diazepam IV:
- Dose: 0.15 mg/kg (aprox. 10 mg para adulto médio).
- Nota: Pode ser repetido uma vez. O Diazepam é altamente lipofílico; entra rápido no cérebro (para a crise), mas redistribui rápido para a gordura e a crise pode voltar. Deve ser seguido de droga antiepiléptica de longa duração se usado. Não deve ser feito IM pois tem absorção errática por essa via.
- Lorazepam IV:
- Dose: 0.1 mg/kg (máx 4 mg por dose).
- Contexto: Padrão-ouro nos EUA, mas frequentemente indisponível no Brasil. Tem meia-vida cerebral mais longa que o Diazepam.
Dica Prática: Não dilua BZDs para infusão lenta nesta fase. Faça em bolus. Esteja preparado para intubar se houver depressão respiratória (que é mais comum pela própria crise prolongada do que pelo uso correto do benzodiazepínico).
Obs.: Diazepam Retal:
- Dose: 0,5 mg/kg (máx 20 mg).
- Contexto: Alternativa útil em pediatria ou no ambiente pré-hospitalar quando não há acesso venoso e o Midazolam IM não está disponível. A absorção é razoavelmente previsível, embora mais lenta que a via IV.
“Segunda Linha”: Fase 2 – Estado de Mal Estabelecido (Minutos 20-40)
Se o paciente continua convulsionando após dose plena de benzodiazepínico, estamos diante de um Estado de Mal Epilético Estabelecido (refratário aos BZDs). É necessário iniciar um anticonvulsivante (DAE) não-benzodiazepínico IV.
Aqui entra a importância do estudo ESETT (Established Status Epilepticus Treatment Trial, NEJM 2019). Este ensaio clínico randomizado comparou três drogas de segunda linha.
Resultado do ESETT: Não houve diferença estatisticamente significativa na eficácia entre Fenitoína, Valproato e Levetiracetam. Todos tiveram taxa de sucesso de aproximadamente 47-50% em parar a crise.
Portanto, a escolha depende do perfil de efeitos colaterais e disponibilidade:
A. Fenitoína (Hidantal)
Ainda é a droga mais disponível no Brasil.
- Dose de Ataque: 20 mg/kg IV.
- Velocidade: Máximo 50 mg/min.
- Cuidados Críticos:
- Hipotensão e Arritmias: Monitorize o ritmo cardíaco e PA durante a infusão. Risco de síndrome do homem roxo (raro) ou necrose se extravasar.
- Incompatibilidade: NUNCA diluir em Soro Glicosado. A fenitoína precipita (cristaliza) em pH ácido/glicose. Use apenas Soro Fisiológico 0,9%.
OBS.: Nota sobre o ESETT e a Realidade Brasileira: O estudo ESETT utilizou a Fosfenitoína (uma pró-droga da Fenitoína). Embora a Fosfenitoína não seja amplamente disponível no Brasil, os dados de eficácia (~45%) podem ser extrapolados para a nossa Fenitoína, pois o metabólito ativo é o mesmo.
Contudo, ao usar a Fenitoína (Hidantal), deve-se redobrar a atenção com a segurança: diferentemente da Fosfenitoína (que é hidrossolúvel, tem pH neutro e menor risco de complicações locais/cardíacas) usada no estudo, a Fenitoína não pode ser diluída em glicose, tem velocidade máxima de infusão menor (50mg/min) e maior risco de hipotensão/flebite.
B. Levetiracetam (Keppra)
A opção “moderna”, validada pelo ESETT.
- Dose de Ataque: 60 mg/kg IV (Máximo 4500 mg).
- Vantagens: Infusão mais rápida (em 10-15 min), sem risco de hipotensão ou arritmias graves, sem interação hepática significativa (ideal para hepatopatas ou pacientes em uso de múltiplos fármacos).
- Desvantagem: Custo e disponibilidade no SUS.
C. Valproato de Sódio (Depakene IV)
- Dose de Ataque: 40 mg/kg IV (Máximo 3000 mg).
- Vantagens: Excelente eficácia.
- Desvantagens: Risco de hepatotoxicidade aguda, hiperamonemia e contraindicado em gestantes/mulheres em idade fértil (risco teratogênico).
Dica Prática – ESETT: Se você tiver Levetiracetam disponível, ele é preferível em pacientes hemodinamicamente instáveis ou cardiopatas, para evitar a cardiotoxicidade da fenitoína. Se usar Fenitoína, garanta acesso calibroso e SF 0,9%.
Estado de Mal Refratário
Se a segunda linha falhar, definimos como Estado de Mal Refratário. A mortalidade aqui dispara. Não tente uma “terceira droga” antiepiléptica convencional acordado. O paciente precisa de coma induzido.
- Intubação Orotraqueal (IOT): Obrigatória para proteção de via aérea e ventilação.
- Sedação Contínua (Anestesia): O objetivo é supressão do surto no EEG (se disponível) ou cessação clínica total.
- Propofol: Bolus + Infusão contínua. Cuidado com hipotensão.
- Midazolam: Bolus + Infusão contínua. Taquifilaxia (perda de efeito) é comum após 24h.
- Tiopental: Pouco usado hoje devido à meia-vida longa e cardiodepressão, mas é uma opção potente.
- Duração da Sedação: Não há consenso absoluto, mas a maioria dos protocolos recomenda manter a supressão de crises (clínica ou eletrográfica) por 24 a 48 horas antes de iniciar o desmame gradual da sedação. O desmame deve ser lento (redução de 20-25% a cada 6-12h), com monitorização clínica rigorosa — idealmente com EEG contínuo, quando disponível — para detectar recorrência precoce.
Diagnóstico Diferencial
Voltando ao caso do “BBB”: nem tudo que treme é epilepsia. O médico deve diferenciar:
- Síncope Convulsiva: Hipoperfusão cerebral global transitória (ex: reflexo vasovagal por dor, calor, exaustão ortostática). Pode gerar mioclonias breves (< 15 segundos). A recuperação da consciência é rápida e não há confusão pós-ictal prolongada. O tratamento é reposição volêmica e decúbito, não anticonvulsivantes.
- Crise Não-Epilética Psicogênica (CNEP / PNES): Comum em contextos de alto estresse emocional.
- Sinais Sugestivos: Movimentos de “não” com a cabeça, impulsos pélvicos, olhos fechados com força (resistência à abertura palpebral), flutuação da intensidade, duração muito longa sem cianose/dessaturação grave.
- Abordagem: Evite escalada de sedativos e intubação desnecessária se a suspeita for alta.
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Conclusão e Resumo Prático
A abordagem da crise convulsiva exige uma mudança de mentalidade: de “esperar passar” para “tratar agressivamente no tempo certo”.
- Cronômetro: Ligou o cronômetro? Passou de 5 minutos = Estado de Mal (t1).
- Glicemia: HGT é o “sexto sinal vital”.
- Benzodiazepínicos: Dose plena é mandatório (Midazolam 10mg IM ou Diazepam 10mg IV). Não sub-trate.
- Falha de Benzos: Inicie 2ª linha imediatamente (20mg/kg Fenitoína ou 60mg/kg Levetiracetam ou 40mg/kg Valproato). O estudo ESETT mostra eficácia similar.
- Refratariedade: Intubação e anestesia contínua (Propofol/Midazolam).
O sucesso no tratamento do Estado de Mal Epilético não é definido apenas pela droga que você escolhe, mas pela velocidade e precisão da dose com que você a administra.
Referências Bibliográficas:
- Trinka E, et al. A definition and classification of status epilepticus – Report of the ILAE Task Force. Epilepsia. 2015.
- Glauser T, et al. Evidence-Based Guideline: Treatment of Convulsive Status Epilepticus in Children and Adults: Report of the Guideline Committee of the American Epilepsy Society. Epilepsy Curr. 2016.
- Kapur J, et al. Randomized Trial of Three Anticonvulsant Medications for Status Epilepticus (ESETT). N Engl J Med. 2019.
Sobre a autora

Olyvia Spontan é médica formada pela Universidade Tiradentes (UniT) em 2022, com formação sanduíche na UPAEP (Universidad Popular Autónoma del Estado de Puebla – México) – ano de 2016.
Atua como médica reguladora e tem experiência em regulação de urgências e regulação de leitos. Além disso, é entusiasta da tecnologia, aliada à IA para redação de textos médicos, dos quais hoje é revisora.









