Enquanto o Brasil registra recordes de morte por câncer de colo do útero, a Austrália está a poucos passos de eliminar a doença completamente. A diferença entre os dois países não está na tecnologia disponível está na consistência das políticas públicas de vacinação e rastreamento ao longo das últimas décadas.
De acordo com levantamento divulgado em março de 2026, com base em dados do DATASUS, organizados no Observatório da Saúde Pública da Umane, o Brasil registrou cerca de 7,5 mil mortes por câncer de colo do útero em 2024, o maior número da série histórica iniciada em 2000. No acumulado desde 2022, o aumento chega a 13,4%. Enquanto isso, na Austrália, em 2021 não houve nenhum caso da doença em mulheres menores de 25 anos pela primeira vez desde o início dos registros.
Uma batalha contra a doença
O caminho australiano foi construído ao longo de mais de três décadas de investimento contínuo e consistente em prevenção. Em 1991, o país lançou seu programa nacional de rastreamento do câncer cervical, o que reduziu casos e mortes em cerca de 50% nos anos seguintes.
Em 2007, a Austrália se tornou um dos primeiros países do mundo a lançar um programa nacional de vacinação contra o HPV. Como resultado, as taxas de infecção despencaram, assim como o número de lesões precursoras do câncer.
Em 2017, o país deu mais um passo decisivo: substituiu o exame Papanicolau pelo teste de HPV como método primário de rastreamento. O novo teste identifica mulheres em risco antes que as lesões apareçam e permite intervalos mais longos entre os exames. A mudança reduziu ainda mais os índices da doença.
O resultado acumulado é expressivo. Segundo o 2025 Cervical Cancer Elimination Progress Report, a incidência caiu para 6,3 casos por 100 mil mulheres em 2021, e apenas 1% das mulheres entre 25 e 29 anos testaram positivo para os tipos mais agressivos do HPV. A sobrevivência em cinco anos subiu de 73,9% para 76,8% entre 2012 e 2021.

O desafio que ainda persiste
Apesar dos avanços, a Austrália enfrenta um novo risco: as taxas de vacinação e rastreamento caíram desde a pandemia. Em 2020, 85,7% dos jovens haviam tomado a vacina contra o HPV. Em 2024, esse número caiu para 79,5%. Mais de uma em cada quatro mulheres está atrasada no rastreamento.
O alerta australiano é uma lição importante: conquistas em saúde pública precisam ser mantidas com investimento contínuo. Uma queda nas taxas de cobertura pode reverter décadas de progresso.
Leia mais em: Vacinação contra HPV avança no Brasil e ultrapassa média mundial
O Brasil enfrenta dificuldades
O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima 17 mil novos casos de câncer de colo do útero por ano no triênio 2023–2025. A doença permanece entre as principais causas de morte de mulheres jovens no país.
Os dados do DATASUS/Umane revelam quem mais sofre com a doença: a maior parte das mortes ocorre entre mulheres com 65 anos ou mais (32,6% dos casos), com maior incidência entre mulheres pardas (48,3%) e com menor escolaridade, especialmente aquelas com até sete anos de estudo (52,3%). As regiões Norte e Nordeste concentram as maiores taxas de incidência e mortalidade do país.
Outro dado preocupante vem do Vigitel 2024: 12,5% das mulheres entre 25 e 64 anos nunca realizaram o exame de Papanicolau, principal forma de detectar alterações precursoras da doença.
Avanços recentes no Brasil
O Brasil tem dado passos importantes. O SUS oferece a vacina contra o HPV gratuitamente para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Em 2025, a cobertura vacinal chegou a 79,95%, com avanço em relação aos 75% registrados em 2024. A adesão é maior entre meninas (85,89%) do que entre meninos (74,26%).
Em 2025, o país também começou a implantar o teste de DNA-HPV como método primário de rastreamento, substituindo progressivamente o Papanicolau a mesma transição que a Austrália fez em 2017 e que acelerou a queda dos casos por lá. O novo teste é mais sensível, estende o intervalo entre exames para até cinco anos e permite a autocoleta em populações específicas, facilitando o acesso em regiões remotas.

O que o Brasil precisa fazer agora
A comparação com a Austrália deixa claro o que funciona: décadas de vacinação em massa, rastreamento organizado e mensagens consistentes para a população. O Brasil tem estrutura, tecnologia e um sistema de saúde universal. O que ainda falta é garantir que essas ferramentas cheguem a todas as mulheres, especialmente as mais vulneráveis.
Para isso, três frentes são essenciais. A primeira é ampliar a vacinação de meninas e meninos, especialmente em regiões com menor cobertura. A segunda é garantir a distribuição equitativa do teste de DNA-HPV, com laboratórios capacitados e retorno ágil das pacientes. A terceira é reduzir as desigualdades regionais, com estratégias de autocoleta e educação em saúde voltadas para mulheres em áreas vulneráveis.
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