Numa das apostas mais polêmicas e promissoras da indústria alimentícia global, a JBS decidiu colocar dinheiro, laboratórios e pós-doutores a serviço de uma ideia que ainda soa estranha para a maioria dos consumidores: produzir carne sem abater animais.
A empresa, maior processadora de proteína animal do mundo, anuncia a construção de um centro de pesquisa em Florianópolis dedicado exclusivamente ao desenvolvimento da chamada carne cultivada.
JBS investe em centro de pesquisa de carne cultivada
A tecnologia não tem nada de vegetariana. O ponto de partida é uma amostra de células retiradas de um animal vivo. Essas células são colocadas em biorreatores, equipamentos que simulam as condições do organismo, e alimentadas com nutrientes que estimulam sua multiplicação até formar tecido muscular. O resultado final é, biologicamente, carne, produzida sem criação extensiva, sem abate e, em tese, com impacto ambiental significativamente menor.
O problema, até agora, é que esse processo custa caro, muito caro. Torná-lo economicamente viável em escala industrial é o principal obstáculo que separa a tecnologia do mercado de massa, e é exatamente aí que a JBS pretende atuar.
O JBS Biotech Innovation Center fica no Sapiens Parque, polo tecnológico da capital catarinense. O investimento total do projeto, dividido em três etapas, foi orçado em 62 milhões de dólares. As duas primeiras fases, que incluem laboratórios e uma planta-piloto, demandam 22 milhões de dólares. A terceira etapa prevê a construção de um módulo em escala industrial para testar a viabilidade comercial do processo.
A equipe será composta por 25 pós-doutores especializados em bioengenharia e áreas correlatas. As pesquisas já começaram em instalações temporárias dentro do próprio parque, com foco inicial no estudo do comportamento celular de espécies bovinas.
A gigante dos frigoríficos investindo em carne cultivada
A maior empresa de abate de animais do planeta está investindo para tornar o abate dispensável. A JBS, no entanto, prefere enxergar a jogada como pragmatismo. O mercado de proteína alternativa cresce, reguladores ambientais apertam o cerco sobre a pecuária tradicional e consumidores em mercados ricos começam a questionar o modelo convencional. Ignorar essa tendência seria um risco maior do que abraçá-la.
A empresa já tem um pé nesse mercado por meio da Biotech Foods, empresa espanhola da qual detém 51% do capital. Em San Sebastián, no País Basco, a Biotech Foods está construindo aquela que seria a maior fábrica de carne bovina cultivada do mundo, com capacidade inicial para mais de mil toneladas anuais e potencial de expansão para quatro mil toneladas.
Apesar do volume de investimento e da retórica otimista, a carne cultivada ainda enfrenta barreiras concretas. O custo de produção permanece muito acima do da carne convencional. Poucos países aprovaram a comercialização do produto, e a escala industrial nunca foi demonstrada de forma consistente em nenhum lugar do mundo. A aprovação regulatória no Brasil, por exemplo, ainda não existe.
O que o centro de Florianópolis se propõe a fazer, portanto, é pesquisa de base, trabalho científico de médio e longo prazo cujos resultados concretos para o consumidor final estão, na melhor das hipóteses, a alguns anos de distância.
A chegada as prateleiras
Se a tecnologia se mostrar viável, os primeiros produtos a chegar às prateleiras devem ser alimentos processados, hambúrgueres, almôndegas e embutidos, em que a textura e o sabor da carne cultivada podem ser ajustados com mais facilidade do que num corte in natura. A empresa afirma que o consumidor não notará diferença.
Por ora, o que existe é uma aposta milionária num mercado ainda em formação, feita por uma empresa que construiu sua história exatamente no modelo que essa tecnologia promete, ao menos parcialmente, substituir.
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