A enfermagem enfrenta uma emergência que não aparece nos prontuários. Um levantamento realizado em parceria entre a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Ministério Público do Trabalho, com base em dados do INSS de 2012 a 2022, revela que mais de 70 mil trabalhadores da área solicitaram afastamento por problemas de saúde mental nos últimos anos.
Entre eles estão técnicos, auxiliares de enfermagem e enfermeiros, profissionais que sustentam a linha de frente do cuidado no Brasil.
Jornadas longas e déficit de pessoal
No Brasil, cerca de 67% dos contratos na enfermagem são regidos pela CLT. A maioria dos profissionais cumpre jornadas semanais entre 31 e 44 horas, em regime de plantões de 12 horas ininterruptas, seguidas de 36 horas de folga.
Entre 2017 e 2022, o número de vagas apenas para enfermeiros cresceu 44%, chegando a 1,5 milhão. Apesar da expansão dos postos de trabalho, o número de profissionais cresceu pouco, o que indica que muitos estão ocupando mais de uma vaga ao mesmo tempo, aumentando a sobrecarga da categoria.
O déficit é antigo. Dados do Conselho Federal de Enfermagem apontam que, em 2020, durante a pandemia de Covid-19, o país tinha pelo menos 17 mil profissionais a menos do que o necessário. A solução encontrada foi flexibilizar ainda mais a carga horária para que esses trabalhadores pudessem atender mais de uma instituição de saúde.
Os números por categoria
Os afastamentos se distribuem da seguinte forma: técnicos de enfermagem lideram com 48.160 casos, seguidos por auxiliares de enfermagem com 17.993 e enfermeiros com 14.548.
Juntos, esses profissionais representam mais de 3 milhões de trabalhadores que atuam sob pressão constante e em condições desgastantes. Dados dos Conselhos Regional de Medicina e Enfermagem de São Paulo indicam que quase 60% dos médicos e aproximadamente 55% dos enfermeiros já sofreram algum tipo de agressão no ambiente de trabalho.
Depressão, ansiedade e estresse lideram os diagnósticos
Os motivos mais frequentes para os afastamentos são episódios depressivos, transtornos ansiosos e reações a estresse grave com transtornos de adaptação.
Esse retrato clínico não é exclusivo do Brasil. A OIT estima que 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos anualmente no mundo em decorrência de depressão e ansiedade, com impacto de quase um trilhão de dólares à economia global.
Segundo o Relatório Mundial da Saúde Mental, publicado pela OMS em 2022, o fenômeno afeta tanto países de baixa renda quanto nações desenvolvidas, o que evidencia uma crise estrutural, e não apenas conjuntural.
Mulheres são as mais afetadas
Uma pesquisa publicada na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional ouviu 581 profissionais de enfermagem da região Sul do país, sendo 84,9% mulheres, para investigar a prevalência do risco de suicídio na categoria. O estudo identificou que 8,8% dos entrevistados convivem com algum grau desse risco.
Os dados apontam que mulheres entre 41 e 68 anos, LGBTQIAPN+, de etnia branca, com ensino médio completo, sem filhos e sem companheiros são as mais afetadas.
Além do risco de suicídio, outros fatores comprometem a saúde desses trabalhadores. O sobrepeso atinge 27% dos profissionais, a hipertensão afeta 17,2% e a depressão e o estresse atingem 16,2% da categoria. Ainda mais alarmante: 28,6% dos entrevistados relataram ter mais de uma doença crônica associada ao trabalho.
O trabalho como fator de risco
Para a OIT, o ambiente profissional pode ser tanto promotor quanto destruidor da saúde mental. Quando bem organizado, o trabalho oferece estrutura de rotina, contato social, propósito coletivo e identidade. Quando marcado por sobrecarga, prazos irrealistas, isolamento e insegurança, torna-se um gatilho para o adoecimento psíquico.
Especialistas apontam que o avanço dos afastamentos por saúde mental não é um fenômeno isolado, mas o reflexo de transformações profundas na organização do trabalho no país. As categorias mais afetadas são justamente aquelas com menor poder de negociação e maior dependência da continuidade laboral para garantir renda.
Entre os fatores estruturais identificados pelos pesquisadores estão os contratos temporários e a alta rotatividade, o medo do desemprego, o excesso de metas atreladas à remuneração, as jornadas excessivas e a ausência de reposição adequada de pessoal.
Cofen cria câmara técnica para enfrentar a crise
Em resposta à gravidade do cenário, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) aprovou, em janeiro de 2026, a criação da Câmara Técnica de Enfermagem em Saúde Mental. O novo grupo busca reunir especialistas para subsidiar políticas de saúde e fortalecer ações de apoio aos profissionais da categoria.
📲 As principais notícias do dia na sua caixa de entrada! Se inscreva na Newsletter da MEM









