Os transtornos mentais se tornaram uma das principais causas de afastamento do trabalho no Brasil, com um salto expressivo nos últimos dois anos e impacto direto nos cofres públicos, na produtividade e na vida de milhões de trabalhadores.
Dados oficiais do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), analisados pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), mostram que os afastamentos por transtornos mentais subiram cerca de 80% entre 2023 e 2025, custando mais de R$ 954 milhões ao sistema previdenciário em 2025.
Entidades de saúde alertam que o ambiente de trabalho tem se tornado um vetor agressivo de adoecimento mental, exigindo uma revisão urgente das práticas de gestão e cultura organizacional nas empresas brasileiras.
Como funciona o afastamento e o papel do INSS
No Brasil, o sistema previdenciário atua quando o trabalhador precisa de mais de 15 dias consecutivos de licença. Até o 15º dia, o custo é da empresa; a partir daí, o segurado passa pela perícia do INSS para receber o auxílio-doença (atualmente chamado de auxílio por incapacidade temporária).
Entre 2023 e 2025, esses números tiveram um crescimento constante:
- 2023: 219.850 afastamentos por transtornos mentais
- 2024: 367.909
- 2025: 393.670 até novembro, um aumento de quase 80% sobre 2023, mesmo sem a totalização de dezembro.
O custo dos benefícios acompanha essa trajetória: de R$ 477 milhões em 2023 para mais de R$ 954 milhões em 2025, representando um aumento de quase 100% em dois anos.
Depressão e ansiedade lideram o adoecimento
Os transtornos depressivos, incluindo episódios depressivos e transtorno depressivo recorrente, são as principais causas de afastamento por saúde mental. Em 2025, somaram 182.937 casos, quase metade de todos os afastamentos por transtornos mentais registrados no período.
A ansiedade, classificada como “outros transtornos ansiosos”, também teve crescimento acelerado, quase dobrando seu número de registros entre 2023 e 2025, chegando a 157.235 casos, cerca de 40% do total dos afastamentos por transtornos mentais no último ano analisado.
Especialistas apontam que esses quadros são favorecidos por fatores como sobrecarga de trabalho, pressão por resultados, jornadas extensas e baixa previsibilidade nas rotinas, favorecendo o desenvolvimento gradual de sofrimento psíquico entre os trabalhadores.
Burnout: o crescimento proporcional mais expressivo
Outro diagnóstico que se destacou no período foi a síndrome de Burnout, um estado de esgotamento físico e emocional associado diretamente ao trabalho. Os registros de afastamento por Burnout mais do que triplicaram entre 2023 e 2025, passando de 1.760 casos para 6.985.
Esse aumento, segundo a ANAMT, está relacionado, em parte, ao maior reconhecimento do fenômeno no meio médico. A transição da Classificação Internacional de Doenças (CID)-10 para a CID-11 trouxe critérios mais objetivos para identificar a síndrome, reforçando sua natureza ocupacional, e sua relação direta com condições de trabalho.
Embora a CID-11 já esteja sendo adotada gradualmente, sua implementação plena nos sistemas oficiais de saúde está prevista para janeiro de 2027, o que pode aprimorar ainda mais o reconhecimento e registro desses casos.
Diversos transtornos e a evolução dos números
Além de depressão, ansiedade e Burnout, a análise dos dados mostra que outros transtornos mentais também apresentaram crescimento nos afastamentos, ainda que em números menores:
- Reações ao estresse grave e transtornos de adaptação tiveram aumento consistente no período.
- Transtornos psicóticos agudos e transitórios, transtornos delirantes persistentes e transtornos mentais relacionados ao uso de substâncias também figuram nas estatísticas, reforçando que o adoecimento mental no trabalho é multifacetado.
Esses quadros, combinados com a crescente prevalência de diagnósticos como ansiedade e depressão, colocam os transtornos mentais entre as principais causas de afastamento laboral no Brasil, rivalizando com distúrbios físicos clássicos em impacto e relevância.
Um problema de saúde pública e de trabalho
O avanço acelerado dos afastamentos por transtornos mentais no Brasil reflete não apenas uma maior conscientização sobre saúde mental, mas também problemas estruturais no mundo do trabalho: jornadas exaustivas, pressão constante, insegurança no emprego e falta de apoio psicossocial.
Especialistas defendem que apenas olhar para os números de afastamento não é suficiente. É necessário investir em ações preventivas no ambiente de trabalho, incluindo detecção precoce, apoio psicossocial, políticas de bem-estar e mudanças nas condições laborais que promovam um ambiente mais saudável para os trabalhadores.
Saúde mental deixou de ser um assunto periférico para se tornar um dos principais desafios, e custos, do sistema de saúde e previdência no Brasil.
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