Estudantes de Medicina da Fundación Barceló, em Buenos Aires, realizaram um protesto contra os frequentes aumentos nas mensalidades. A mobilização dos estudantes de medicina na Argentina aconteceu no último dia 19 e reflete a insatisfação com a falta de transparência nos reajustes e os impactos financeiros enfrentados, especialmente, por alunos estrangeiros.
Os discentes exigem maior clareza sobre os critérios adotados para os reajustes e revisão dos valores projetados para 2025. Além disso, defendem a criação de um canal de diálogo direto com a administração da instituição. Segundo relatos de estudantes ouvidos pela MEM, que preferem não se identificar, os aumentos ocorrem mensalmente, enquanto outras universidades privadas argentinas reajustam seus preços trimestralmente.
Uma aluna natural do Rio de Janeiro revela que os gastos com mensalidades e despesas gerais têm ultrapassado R$ 6 mil. O preço é equivalente ao da universidade mais barata do Brasil. “A maioria das faculdades privadas estão aumentando bastante as mensalidades, mas a Barceló aumenta todo mês. Tenho amigos que vieram para cá atrás de medicina mais acessível. Hoje deixam de fazer uma compra completa para casa, pois precisam pagar a mensalidade”, comenta.
Outro estudante brasileiro reclama do tratamento dado pela instituição. “As universidades colocam como base a inflação, que realmente subiu muito na Argentina. Sabíamos que haveria um aumento na faculdade como consequência, mas o maior problema é que não tem uma previsão ou estimativa desse aumento. Na Fundación Barceló, o que indigna, além da instabilidade e do descaso para dar um retorno aos alunos, é que em teoria é uma fundação que não deveria ter foco em ganhos e lucros”, desabafa.
Comunidade da instituição

Em resposta ao protesto, a Fundación Barceló emitiu um comunicado aos estudantes justificando os reajustes com a inflação persistente no país (O acúmulo é de 193% nos últimos 12 meses). Também afirmou que, apesar dos aumentos, continua sendo uma das mais acessíveis no mercado argentino. Já em resposta aos alunos brasileiros, a Barceló reiterou que oferece mensalidades cerca de seis vezes mais baratas do que as universidades privadas no Brasil.
Contexto econômico
A crise inflacionária na Argentina é apontada como um dos principais fatores para a alta frequente nos custos educacionais. De acordo com o economista Márcio Rocha, desde que assumiu o poder em 2023, o presidente Javier Milei tem enfrentado uma série de desafios econômicos enquanto busca implementar reformas profundas no país.
“Milei herdou uma economia em grave crise, marcada por uma inflação superior a 200% ao ano e uma taxa de pobreza em torno de 45% no final de 2023. A pobreza aumentou significativamente, alcançando 55,5% no início de 2024, enquanto a indigência chegou a 17,5%, níveis alarmantes que não eram vistos há décadas. O ajuste fiscal, aliado à inflação, tornou mais difícil a vida dos argentinos, especialmente para a classe média e os mais pobres, que enfrentam aumentos expressivos em serviços essenciais como energia e gás”, explica Rocha.
A instabilidade tem gerado preocupação entre estudantes que deixaram o Brasil com o sonho de cursar medicina no exterior. “Muitos alunos têm trancado a matrícula, voltado para o Brasil ou buscado uma oportunidade de recomeçar no Paraguai, por exemplo. O problema é que no Brasil é dificílimo conseguir uma transferência externa para uma faculdade pública, e uma particular fica em torno de R$10 mil por mês”, diz um dos acadêmicos entrevistados pelo portal Melhores Escolas Médicas.
Crise universitária
Durante a Marcha Federal Universitária, no último mês de outubro, cerca de 1 milhão de pessoas foram às ruas de Buenos Aires em favor da Lei do Financiamento Universitário, que previa o aumento no aporte financeiro para as universidades públicas, mas a lei foi vetada pelo presidente Milei, e o veto foi mantido pelo legislativo. A alegação é de que não há recursos financeiros disponíveis.
O orçamento de 2025 proposto pelo governo elimina o piso mínimo de financiamento para universidades, escolas técnicas e desenvolvimento científico. Além disso, o governo pretende habilitar as instituições públicas a cobrar pelo ensino aos estrangeiros.
Para Márcio Rocha, a tentativa é de aliviar a carga fiscal sem comprometer o acesso dos cidadãos argentinos ao ensino gratuito. “Essa medida faz parte do debate sobre financiamento sustentável da educação superior em um ambiente econômico desafiador, marcado por altos índices de inflação, déficit fiscal e pressão sobre as contas públicas. Na Argentina, a educação superior pública tem sido tradicionalmente gratuita, tanto para nacionais quanto para estrangeiros, uma característica que atrai estudantes de toda a América Latina. Contudo, essa gratuidade representa um custo significativo para o orçamento público”, explica o economista.
Medicina na Argentina
Durante anos, a Argentina foi o principal destino de estudantes brasileiros que buscavam realizar o sonho de cursar Medicina. De 2015 a 2022, o número saltou de 4 mil para 20 mil. A principal atração sempre foi o sistema de ensino universitário amplamente reconhecido por sua qualidade, gratuidade nas instituições públicas, valores acessíveis e a ausência de vestibular como critério de entrada. Diferentemente do país hermano, o Brasil tem tido cada vez mais aumento no valor da mensalidade. E isso também tem sido um fator para a migração dos alunos.
Agora, com o aumento do custo de vida na Argentina, os estudantes brasileiros têm optado por migrar para outros países latinos. Contudo, uma das alunas brasileiras ouvidas avalia que ainda é mais vantajoso estudar medicina na Argentina do que voltar para seu país de origem. “No Brasil ainda é mais caro. No meu estado, uma mensalidade custa em torno de 14 mil”, pondera.
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