Um grave incidente ocorrido no sábado (7/2) em uma academia da zona leste de São Paulo levantou um alerta sobre os riscos do uso inadequado de produtos químicos em ambientes aquáticos fechados. Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, morreu após participar de uma aula de natação na piscina da academia C4 Gym. Outras seis pessoas apresentaram sintomas de intoxicação, quatro delas precisaram ser hospitalizadas.
A principal suspeita é de que uma reação química envolvendo produtos à base de cloro tenha provocado a liberação de gás tóxico no ambiente. Testemunhas relataram sensação de sufocamento e forte irritação respiratória, descrevendo o local como tomado por um “ar envenenado”.
A Polícia Civil interditou a academia, e a perícia investiga as circunstâncias do ocorrido.
Vítima passou mal durante a aula
Juliana treinava acompanhada do marido, Vinicius de Oliveira, quando começou a se sentir mal ainda dentro da piscina. O casal deixou o local e procurou atendimento por conta própria no Hospital Santa Helena, em Santo André. A jovem não resistiu. Vinicius permanece internado em estado grave.
Outras vítimas também buscaram socorro:
- Um adolescente foi levado ao Hospital Vila Alpina com intensa dificuldade respiratória.
- Uma mulher de 29 anos foi internada na UTI do Hospital São Luiz do Tatuapé, com sintomas como dor de cabeça, vômito e diarreia.
- Outras três pessoas passaram por avaliação médica.

O sepultamento de Juliana ocorreu na tarde de segunda-feira (9/2), no Cemitério da Quarta Parada, na capital paulista.
Relatos apontam manipulação inadequada de produtos químicos
Um aluno que participava da aula afirmou que funcionários da academia teriam misturado produtos à base de cloro em um balde ao lado da piscina, o que pode ter desencadeado a liberação do gás.
O advogado Eduardo Esteves Rossini, de 37 anos, descreveu a situação:
“Ficou impossível de respirar. O desconforto foi imediato. Parecia que o ar tinha sido envenenado.”
A mistura incorreta de produtos químicos, especialmente cloro com substâncias incompatíveis, pode gerar gás cloro altamente irritante e potencialmente letal, sobretudo em ambientes fechados e com pouca ventilação.

O que explica a intoxicação por gás cloro, segundo especialista
Em entrevista, o toxicologista Marcelo Nery explicou que os relatos de um cheiro forte e característico indicam a possível formação de gás cloro, resultado da reação entre hipoclorito produto comum no tratamento de piscinas e outra substância química desconhecida.
Segundo o especialista, o gás cloro é altamente tóxico. Ao entrar em contato com regiões úmidas do corpo, como alvéolos pulmonares e mucosas, ele reage rapidamente, danificando as membranas celulares e formando ácido clorídrico, que tem efeito corrosivo. “Há uma sobreposição de dois efeitos nocivos: a ação destrutiva do cloro sobre as células e o efeito corrosivo do ácido clorídrico”, explica.
Essa combinação pode comprometer a saúde de forma rápida e grave, especialmente quando há exposição prolongada ao gás em ambiente fechado. Nery destaca que isso ajuda a entender por que os alunos que estavam na piscina passaram mal, enquanto a pessoa que teria feito a mistura não apresentou sintomas. “Quem adicionou o produto provavelmente se afastou do local logo após, enquanto os alunos permaneceram no ambiente tempo suficiente para que o gás se formasse e se acumulasse”, afirma.
O toxicologista compara o espaço a um “bolsão de cloro”, onde o ar saturado acaba sendo inalado continuamente, aumentando o risco de lesões pulmonares graves e até morte.
Ele também chama atenção para a importância da ventilação adequada, prevista em normas técnicas. Ambientes como academias devem contar com sistemas de insuflação e exaustão de ar, que renovam constantemente o ar interno. “Na ausência desses equipamentos, qualquer gás produzido permanece no local, elevando progressivamente a concentração e o potencial de dano às pessoas expostas”, conclui.
Como ocorrem intoxicações em piscinas
Casos de intoxicação podem estar associados a:
- Excesso de cloro acima do limite seguro (1 a 3 ppm)
- Mistura inadequada de produtos químicos
- Ambientes fechados sem ventilação adequada
- Uso simultâneo de substâncias incompatíveis, como cloro e ácidos
A liberação de gás cloro é considerada uma das ocorrências mais graves nesse tipo de ambiente.
Sintomas de exposição
Os sintomas mais comuns incluem:
- Ardência nos olhos, nariz e garganta
- Tosse, chiado e dificuldade para respirar
- Náusea, vômito, tontura e dor de cabeça
- Irritação ou queimaduras na pele
Em casos graves, podem ocorrer lesões pulmonares, edema pulmonar e parada cardiorrespiratória. Sintomas persistentes ou intensos exigem atendimento médico imediato.

Cheiro forte de cloro nem sempre indica excesso
Especialistas alertam que o cheiro intenso em piscinas geralmente está relacionado à formação de cloraminas, substâncias resultantes da reação do cloro com suor, urina e outras impurezas. Assim:
- Piscinas com cheiro forte podem ter pouco cloro ativo
- Piscinas sem cheiro podem apresentar níveis perigosos
O olfato, portanto, não é um método confiável para avaliar a segurança da água.
Sinais de que a piscina pode estar insegura
É recomendado evitar o uso da piscina se houver:
- Cheiro químico muito intenso ou ardência imediata
- Água turva ou esbranquiçada
- Falta de ventilação em ambientes fechados
- Manipulação de produtos químicos durante o uso
- Falta de informações sobre controle e manutenção da água
Piscinas coletivas devem seguir normas rigorosas de segurança e controle químico.
O que fazer em caso de suspeita de intoxicação
Diante de sintomas após contato com a piscina ou com o ambiente:
- Saia imediatamente do local
- Lave pele e mucosas com água corrente
- Vá para um ambiente ventilado
- Procure atendimento médico o quanto antes
- Não minimize sintomas respiratórios
Casos de intoxicação química podem evoluir rapidamente e exigem avaliação especializada.
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