No início de fevereiro a Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde (MHRA) do Reino Unido emitiu um alerta para diversos casos de pancreatite aguda grave em pacientes que faziam o uso de medicamentos agonistas GLP-1, as populares canetas emagrecedoras.
No Brasil, no último dia 09, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também emitiu um alerta sobre os riscos do uso indevido desses medicamentos, que incluem as substâncias dulaglutida, liraglutida, semaglutida e tirzepatida, o que ocasionou diversas conversas sobre os reais efeitos do uso da substância.
Ainda segundo a nota da Anvisa, o aumento de números de casos se dá tanto no cenário nacional quanto internacional, e que “apesar do alerta, não houve mudança na relação de risco e eficácia dessas substâncias. Ou seja, os benefícios terapêuticos ainda superam os efeitos adversos, de acordo com as indicações e modos de uso aprovados e constantes da bula”, afirmou a agência.
Em entrevista ao portal Melhores Escolas Médicas, o médico e nutrólogo Dr. Márcio Passos explica que as bulas aprovadas pela FDA (agência reguladora dos Estados Unidos) trazem um alerta explícito para casos de pancreatite e que não é uma grande novidade para usuários.

“Existe alerta oficial e orientação prática. Tanto o rótulo do Ozempic quanto o do Mounjaro descrevem sinais compatíveis (como dor abdominal intensa e persistente, por vezes irradiando para as costas, com ou sem vômitos) e orientam interromper o uso e procurar avaliação médica se houver suspeita”, contou o médico.
Também é importante pontuar, segundo o Dr. Márcio, que o tema segue em vigilância, especialmente com o aumento do uso na população.
“Uma meta-análise (2025) com ensaios randomizados encontrou, no conjunto, sinal de risco apenas discreto e com limitações quando há muitos estudos com “zero eventos” (o que dificulta estimar o risco real). Em um estudo publicado no New England Journal of Medicine (2025) comparando tirzepatida e semaglutida, houve caso confirmado de pancreatite no grupo semaglutida e nenhum caso confirmado no grupo tirzepatida, um achado que, por ser raro, não encerra a discussão, mas ajuda a dimensionar a frequência baixa no contexto de pesquisa clínica”, relatou ao portal.

Outro fator importante levantado pelo nutrólogo é que o uso das substâncias por si só não deve ser a única causa responsável pelos casos de pancreatite, “no caso das “canetas”, além de mecanismos ainda investigados, existe um ponto prático: esses medicamentos podem se associar a eventos de vesícula biliar em alguns pacientes, e problemas biliares podem, por si, precipitar pancreatite. A própria bula de tirzepatida também alerta para doença aguda da vesícula”, explicou.
O que é a pancreatite?
A pancreatite é uma inflamação do pâncreas que pode ser aguda ou crônica. É provocada pela formação de cálculos biliares que acabam obstruindo o terminal do colédoco, o ducto que transporta a bile, e interrompendo o fluxo das secreções pancreáticas. De acordo com o portal drauziovarella.uol.com.br , essa obstrução provoca um processo inflamatório intenso e ocasiona no aumento da glândula por causa do edema, causando um acúmulo de líquido.

Já a relação com as canetas emagrecedoras, de acordo com o médico e nutrólogo Dr. Márcio Passos, “a pancreatite é um evento raro, mas potencialmente grave. Por isso, quem usa semaglutida ou tirzepatida precisa conhecer o principal sinal de alerta: dor abdominal forte e persistente, que pode irradiar para as costas, com ou sem náuseas e vômitos”, relatou ao Portal.
O médico alerta ainda para a importância de não seguir com o tratamento após sinais da doença, “se surgir suspeita clínica, a orientação é interromper a medicação e procurar atendimento. Não é um tipo de sintoma para esperar passar. É importante lembrar que diabetes e obesidade já aumentam o risco basal de algumas complicações. O papel do médico é individualizar: avaliar histórico, fatores de risco, como vesícula, triglicerídeos e consumo de álcool, e acompanhar o paciente de perto, especialmente na fase de ajuste de dose”, reforçou.

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Números até agora
No dia 20 de fevereiro a Anvisa informou que já recebeu 65 notificações de mortes suspeitas associadas ao uso das canetas emagrecedoras entre o dia 1º de dezembro de 2018 e 7 de dezembro de 2025. De acordo com a agência, o registro no sistema não significa exatamente que o medicamento tenha sido a causa da morte do paciente e que uma mesma notificação pode conter mais de um evento adverso e mais de um desfecho.
De acordo com a reportagem apurada pelo G1, os registros detalhados destes números revelam que a maioria das vítimas são mulheres e as notificações envolvem diferentes marcas comercializadas no país: Mounjaro, Rybelsus, Ozempic, Xultoph, Saxenda, Victoza, Trulicity e Wegovy.
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A Anvisa afirma ainda que, para que haja uma confirmação de causa e consequência, é necessária uma avaliação clínica e científica que considere fatores como condição de saúde do paciente, combinação de outros medicamentos, qualidade e regularidade do produto utilizado, além da completude das informações fornecidas.

Orientações importantes
A Anvisa recomenda que pacientes que utilizaram canetas emagrecedoras procurem atendimento médico de urgência em caso de dor abdominal intensa e persistente, a dor também pode irradiar para as costas e vir acompanhada de náuseas e vômitos.
Segundo o doutor Márcio, “medicamentos como esses têm benefícios bem estabelecidos para muitos pacientes, mas devem ser usados com indicação correta, acompanhamento e segurança, sem banalização”, finalizou o médico nutrólogo.









