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Sociedades Científicas pedem cautela em debate sobre a Polilaminina

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Com o aumento da exposição midiática sobre o uso da Polilaminina, sociedades científicas emitiram um edital pedindo cautela no debate sobre a substância, principalmente quando não há a devida mediação técnico-científica. O alerta foi publicado na última sexta-feira, 20 de fevereiro, pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) em conjunto com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

O que é a Polilaminina: relembre

A Polilaminina é uma proteína experimental estudada pela Universidade Federal do Rio de janeiro (UFRJ) há mais de 20 anos. Quem comanda o estudo é a pesquisadora e professora da universidade, Tatiana Sampaio.

Essa substância é desenvolvida a partir da Laminina, uma proteína que fica na placenta humana e é presente no desenvolvimento do embrião e na conexão dos neurônios. O estudo é uma parceria com o Laboratório Cristália e utiliza tecnologia 100% brasileira.

Reprodução: TV Globo

Até o momento, o que se sabe sobre a Polilaminina é que ela está em fase de testes de segurança na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ou seja, todas as evidências do estudo ainda são iniciais, o que quer dizer que não existe 100% de certeza sobre a eficácia e segurança científica.

Mas, nas últimas semanas, mesmo não possuindo todas as fases do estudo concluídas, a proteína ganhou notoriedade e passou a ser bastante repercutida nas mídias e redes sociais. A midiatização, aliás, é um dos motivos que levaram as sociedades científicas a solicitarem cautela na comunicação sobre o estudo.

Perda da patente

Recentemente, enquanto participava de entrevistas, a pesquisadora Tatiana Sampaio chegou a revelar que o Brasil perdeu a patente internacional da proteína após cortes de financiamento à UFRJ que não permitiram o pagamento das taxas, principalmente entre os anos de 2015 e 2016.

Esse corte, ocorrido no passado, valida o que as sociedades afirmaram na última sexta. O país, apesar de ter tradição reconhecida em pesquisa básica, ainda enfrenta entraves para conciliar a integração dos demais sistemas de saúde e ciências (como universidades, hospitais universitários e sistema regulatório).

Por isso, de acordo com o editorial, a discussão sobre a patente deve ser “compreendida menos como um evento isolado e mais como parte de um debate mais amplo sobre a gestão de ativos tecnológicos no sistema nacional de CT&I.”

Cresce debate público e sociedades científicas reforçam necessidade de cautela

Especialistas ressaltaram que, em áreas como a neuroregeneração, o caminho que se leva até obter evidências conclusivas finais é longo e complexo, com estudos que passam desde a descoberta científica até a eventual incorporação tecnológica.

Estudos internacionais demonstram que esses processos rigorosos exigem validação científica, regulação sanitária e avaliação clínica; fases incompatíveis para quem espera soluções imediatas. E, caso esses processos de estudo não forem amplamente comunicados para o público, o risco de interpretação equivocada é alto.

Foto: Heloisa Correa/Hospital Evangélico

Por isso, no texto, as sociedades científicas dizem que, embora tecnologias experimentais aumentem a expectativa, principalmente quando relacionadas à doenças graves ou incapacitantes, é necessário que a comunicação sobre pesquisas em estágio inicial sejam feitas com cautela, para que expectativas desproporcionais sejam evitadas.

“A experiência internacional demonstra a importância de estratégias institucionais de comunicação científica coordenada, como ocorre em sistemas integrados de saúde e pesquisa, a exemplo do National Health Service, no Reino Unido, que articula pesquisa clínica, hospitais e comunicação pública”, afirma o editorial.

Entidades científicas alertam para riscos da exposição midiática e da judicialização precoce

Repercussões aceleradas sobre substâncias que tem a chance de eficácia, mas que ainda se encontram em fase de estudo, podem criar expectativas irreais no público. Isso, atribuído com alguns casos que mostraram resultado, podem levar pacientes a recorrerem à Justiça para acessar substâncias ainda não testadas completamente.

Até agora, o Laboratório Cristália já recebeu 37 pedidos de aplicação, mas somente 22 foram realizadas. Entre janeiro e fevereiro, 3 pacientes que recorreram à justiça para uso da proteína morreram durante a fase de testes, mas o laboratório afirma que não há relação com a substância, visto que as mortes foram causadas por complicações clínicas já em casos graves (embolia pulmonar, choque séptico e pneumonia).

Entraves e virtudes reveladas pelo caso

A trajetória da Polilaminina revelou algumas virtudes e entraves no modelo brasileiro de inovação em saúde e na recepção do público para a ciência, destacadas no editorial.

Virtudes

Com a grande midiatização do assunto, o caso da Polilaminina mostrou que o interesse da população por ciência e inovação está maior, principalmente quando envolve doenças graves e condições sem cura definitiva. O engajamento nas redes sociais e a busca por respostas rápidas indicam que o público está cada vez mais participativo.

A mobilização também surgiu por parte dos pesquisadores, que passaram a explicar protocolos, fases de testes clínicos e limites éticos de experimentação. Essa mobilização aproximou universidades, centros de pesquisa e a sociedade, fortalecendo a ciência.

Por fim, o debate trouxe para o centro da discussão temas complexos como terapias regenerativas, segurança sanitária e aprovação urgente da substância. Órgãos como a Anvisa passaram a ser mais citados, contribuindo para a ampliação do entendimento do público sobre o papel da regulação.

Entraves

Por sua vez, um dos principais entraves é na comunicação clara dos estágios reais das pesquisas. Resultados preliminares foram interpretados como soluções prontas para a regeneração da musculatura, o que abriu espaço para interpretações equivocadas e expectativas que ultrapassam a necessária para o momento.

Também foram evidenciados os desafios na articulação entre regulação e ciência, revelando uma distância maior e complexa entre universidades, indústria e autoridades sanitárias. O que, por sua vez, também mostra a falta de infraestrutura para ensaios clínicos complexos, que exigem financiamento alto e protocolos controlados.

E, assim como agiu para a virtude de ampliação da notícia, as redes sociais também desempenharam um papel central na disseminação de informações sobre a Polilaminina, que nem sempre eram verídicas.

Narrativas emocionalmente carregadas se espalharam com rapidez, sem mediação técnico-científica qualificada, o que dificultou a excelência do debate público.

O futuro da Polilaminina

Embora a expectativa em torno da substância seja alta, é importante lembrar que somente evidências clínicas claras podem determinar a eficácia e segurança da proteína e de sua aplicação, que ainda depende de estudos rigorosos para comprovação.

É por esse, entre tantos motivos, que o diálogo entre pesquisadores, governo e o setor produtivo precisa ser direto e claro. A partir dele, é possível reduzir conflitos, acelerar processos e transformar a possibilidade da ciência em casos reais.

No geral, casos como o da Polilaminina vem se mostrando cada vez mais contribuintes para o amadurecimento do debate público sobre saúde e ciência, reforçando a necessidade de transparência e comprometimento das inovações para com a sociedade.

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