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Agregando valor à formação do médico

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Agregando valor à formação do médico
Qualidade na saída é o que garante médicos competentes e segurança ao paciente.

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O Brasil necessita de médicos bem formados em todas as regiões, em todos os serviços e para todas as camadas da população. Esse é o parâmetro que importa. No consultório, na emergência ou na unidade básica, ninguém questiona o nível acadêmico do aluno ao ingressar no curso médico. O que realmente importa é a segurança do diagnóstico, a precisão da conduta, a capacidade de comunicação e o senso de responsabilidade diante de uma vida.

Há mais de duas décadas, as faculdades de medicina recebem estudantes com desempenhos bastante diferentes no ENEM, realidade que reflete desigualdades educacionais históricas, trajetórias escolares distintas e contextos familiares desiguais. Contudo, a diversidade na entrada não pode traduzir-se em desigualdade na saída.

Ao término do curso, todos os egressos devem demonstrar competências, habilidades e atitudes compatíveis com o exercício profissional, exigência que, cada vez mais, passa por avaliações objetivas e por exames externos destinados a aferir a proficiência.

É justamente aqui que se impõe um debate franco. Instituições que acolhem candidatos com aproximadamente 600 pontos, ou menos, no ENEM assumem um desafio pedagógico adicional: precisam desenvolver e aplicar metodologias específicas de educação médica capazes de transformar lacunas iniciais em domínio técnico e clínico. O compromisso institucional não consiste em “acomodar” dificuldades, mas em superá-las por meio de método, monitoramento e rigor formativo.

O resultado esperado é claro: devolver à sociedade médicos muito competentes, iguais ou melhores do que os formados em escolas que selecionam alunos com 800 pontos ou mais.

Nota baixa não é destino, é diagnóstico — e diagnóstico orienta tratamento

Na formação médica, o ponto de partida não determina o ponto de chegada. O que define é a qualidade do percurso: a responsabilidade institucional, a intencionalidade pedagógica e a capacidade de acompanhar o desempenho ao longo do tempo.

Se uma escola admite estudantes que apresentam defasagens em leitura, escrita, raciocínio lógico, base científica ou hábitos de estudo pouco produtivos, não pode recorrer ao improviso, tampouco à esperança de que “o tempo resolverá”. Precisa responder com base na ciência educacional: estratégias andragógicas (voltadas ao adulto), modelo de ensino por competências e mecanismos de apoio contínuos, não restritos apenas aos momentos de crise.

Nesse contexto, a nota do ENEM deve ser interpretada como um diagnóstico inicial. E, assim como na medicina, o diagnóstico serve para orientar a intervenção: trilhas de nivelamento, reforço estruturado, avaliações formativas, tutoria, mentoria e ações precoces que evitem a evolução das dificuldades para reprovações crônicas, evasão ou, ainda pior, formação incompleta.

Coordenação, professores e estudantes: sem alinhamento, não há excelência

Nenhum projeto pedagógico se sustenta por mera imposição. Para que o estudante supere seus déficits e alcance desempenho elevado, é indispensável uma atuação coordenada e persistente de toda a comunidade acadêmica.

Com a participação de todos, a transformação se concretiza, e o estudante que ingressou com dificuldades pode concluir o curso com performance de alto nível.

Mais complexidade em seis anos: o currículo precisa ser robusto

Nas últimas seis décadas, a medicina se tornou mais complexa. Houve ampliação de conhecimentos, tecnologias, protocolos clínicos e exigências relacionadas à segurança do paciente. Também se intensificaram as multimorbidades, o envelhecimento populacional, a judicialização, o trabalho interprofissional e a necessidade de comunicação qualificada em situações críticas.

Apesar disso, a duração histórica de seis anos permaneceu inalterada. Ampliar o número de anos é inviável sob os pontos de vista social e econômico — e, por si só, não garante qualidade formativa. O caminho realista consiste em elevar o padrão dentro do tempo disponível: organizar uma matriz curricular robusta, com no mínimo 8.000 horas, articulando teoria, prática supervisionada, simulação, desenvolvimento de habilidades clínicas e internato, todos conduzidos com intensidade, consistência e avaliação contínua.

Em outras palavras: como não é possível ampliar o calendário, é preciso qualificar o percurso e mensurar os resultados alcançados.

Metodologias específicas: o dever público de quem recebe alunos com maiores lacunas

Para instituições que recebem estudantes com desempenho inicial mais baixo, a adoção de metodologias específicas não constitui um diferencial, mas uma obrigação com o interesse público. Entre as estratégias que elevam o desempenho com base em evidências e com previsibilidade, destacam-se:

  • Ensino por competências e aprendizagem por domínio
    • o progressão baseada em desempenho mínimo seguro, não apenas em presença ou prova final.
  • Avaliação formativa constante
    • o testes frequentes e planos de recuperação estruturados.
  • Nivelamento no início do curso
    • o reforço em fundamentos científicos e habilidades acadêmicas essenciais.
  • Simulação realística e treinamento deliberado
    • o repetição supervisionada até atingir segurança técnica e comunicacional.
  • Tutoria e monitorias
    • o suporte acadêmico sistemático, com metas e acompanhamento.
  • Apoio psicopedagógico permanente
    • o melhoria do desempenho, redução da evasão e proteção da saúde mental.
  • Gestão por indicadores
    • o dados de desempenho para intervenção precoce, antes que a lacuna se transforme em risco.

Essas ações somente produzem efeito se houver uma condição adicional e a mais importante: a adesão do estudante ao processo. Sem disposição e intenção real de aprender, nenhuma metodologia sustenta resultados. Quando escola e estudante caminham juntos, o salto é possível — e mensurável.

Avaliação externa: transparência para a sociedade

Em um país diverso, as avaliações externas aplicadas por órgãos como INEP/MEC são fundamentais para demonstrar resultados e conferir transparência ao debate. Elas permitem comparar desempenhos, identificar boas práticas e demonstrar que, mesmo partindo de condições mais desafiadoras, algumas instituições conseguem criar ambientes de aprendizagem tão eficazes que seus concluintes alcançam desempenho equivalente, ou até superior, ao de escolas que podem adotar processos de entrada mais seletivos.

Essa deve ser a métrica que orienta a discussão pública: qualidade aferida na saída, com critérios claros. Se o concluinte precisa responder a provas objetivas para ser considerado proficiente, o dever institucional consiste em preparar cada estudante — independentemente do ENEM — para atingir esse patamar com segurança e consistência.

O que a sociedade deve exigir

O Brasil não necessita apenas de um maior número de médicos; precisa de médicos bem formados. Esse princípio vale para qualquer curso, em qualquer região, em qualquer faixa de nota de ingresso.

Instituições que recebem alunos com notas de 600, ou menos, assumem uma missão dupla: promover inclusão com responsabilidade e assegurar excelência com método.

Quando entregam esse resultado, prestam um serviço público decisivo: transformam potencial em competência e devolvem à sociedade médicos tecnicamente sólidos, eticamente preparados e clinicamente seguros — prontos para cuidar de vidas.

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Sobre o autor

José Rocha é o reitor da Unichristus (Universidade Christus), no Ceará, onde conduz a instituição com foco em excelência acadêmica, inovação e formação de alto nível. À frente da universidade, ele também dá continuidade ao legado educacional do Colégio Christus, fortalecendo a tradição de qualidade que marca a rede há décadas.

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