Método de Angoff Modificado – Compreender a “engenharia” por trás da nota de corte é fundamental para desmistificar a avaliação externa e qualificar o processo interno.
O Método de Angoff Modificado é considerado o “padrão-ouro” em avaliações de certificação profissional (como Board Exams nos EUA e o próprio Revalida). A sua adoção para o Enamed, conforme citado na Portaria nº 763/2025, sinaliza que o exame não quer apenas saber “quem sabe mais”, mas sim “quem é seguro para exercer a medicina”. Abaixo, detalho o funcionamento técnico do método.
1.O Conceito Central: O “Candidato Minimamente Competente”.
No método Angoff, a nota de corte não é fixa (ex: 70%) nem baseada na curva de Gauss (onde os melhores passam e os piores reprovam, independente da qualidade absoluta). Ela é baseada no conceito do Candidato Minimamente Competente (CMC).
- Quem é o CMC? É o aluno que está na “fronteira”. Ele não é o aluno brilhante, mas também não é o aluno perigoso. É aquele que domina o básico indispensável para atender um paciente sem causar dano.
2. O Passo a Passo do Método de Angoff Modificado.
- Fase 1: Seleção e Treinamento dos Juízes.
Um painel de especialistas (docentes selecionados) é reunido. O primeiro passo não é olhar a prova, mas definir quem é o médico recém-formado minimamente competente no Brasil hoje.
- Fase 2: A Pergunta de Ouro (Julgamento Individual).
Os “juízes” leem cada item (questão) da prova e respondem à seguinte pergunta:
“Qual a probabilidade (em %) de o Candidato Minimamente Competente acertar esta questão?”
Exemplo: Uma questão sobre tratamento inicial de Infarto Agudo do Miocárdio.
O professor A (cardiologista) diz: “Isso é vital. 90% dos CMCs acertariam”.
O professor B (dermato) diz: “É importante, mas complexo. 70% acertariam”.
- Fase 3: A “Modificação” (Discussão e Consenso).
É aqui que entra o Angoff “Modificado”. Após a primeira rodada de notas, os professores comparam suas estimativas.
Se houve discrepância alta (professor A deu 90% e professor C deu 30%), eles debatem.
O especialista explica por que é fácil, o generalista explica por que pode ser difícil.
Após o debate, há uma segunda rodada de votação, ajustando as médias para um consenso mais refinado.
- Fase 4: O Cálculo da Nota de Corte
A nota de corte da prova é a média das probabilidades atribuídas a todos os itens.
Onde é a probabilidade média de acerto do item i e n é o número total de itens.
3. Estratégia para Coordenadores de Curso: Aplicando o Angoff na IES.
Não é viável usar Angoff em todas as provas (consome tempo docente), mas é essencial usá-lo em momentos chave, como no Teste de Progresso ou em Avaliações Integradoras de Ciclo.
Veja como implementar um projeto piloto de “Cultura Enamed” na sua instituição:
a. Oficina de Calibração Docente
- Ação: Reúna o Núcleo Docente Estruturante (NDE) e professores chave.
- Dinâmica: Pegue a última prova do Enade ou do Revalida.
- Exercício: Peça para que atribuam notas pensando no Candidato Minimamente Competente (CMC).
- Objetivo: Isso capacita o olhar do professor. Ele deixa de pensar em “o que eu ensinei” e começa a pensar em “o que é essencial para a profissão”. Isso reduz a cobrança de rodapés de livro e foca na competência clínica.
b. Revisão das Matrizes de Prova
O método Angoff expõe falhas no ensino. Se os professores concordam que uma questão sobre “Intubação Orotraqueal” deve ter 90% de acerto pelo CMC, mas na prática apenas 40% dos alunos acertam, você tem um gap de ensino grave, não apenas uma “turma ruim”.
- Use o Angoff reverso: Defina a meta de acerto (standard) antes da prova e compare com o resultado real.
c. Feedback para o Aluno (Letramento Avaliativo).
Explique aos alunos que a avaliação está mudando.
- Mostre que o objetivo não é “tirar 7”, mas atingir a “zona de segurança”.
- Ao divulgar notas de simulados, apresente a “Nota de Corte Angoff” calculada pelos professores. Isso mostra ao aluno se ele está abaixo do mínimo profissional, o que é um motivador muito mais forte do que estar abaixo da média da turma.
A internalização dessa lógica não apenas coloca a IES em conformidade com a Portaria nº 763/2025, mas redefine a cultura avaliativa da instituição. Transcende-se o treinamento mecânico para exames, adotando-se critérios de proficiência que espelham a própria regulação. Dessa forma, a validação do aluno passa a refletir a segurança necessária para o exercício profissional e a garantir a sustentabilidade dos indicadores de qualidade do curso.
Conheça a colunista:

Juliana Dias é especialista em Avaliação, Regulação e Garantia da Qualidade na Educação Superior, com mais de duas décadas de atuação em docência, gestão acadêmica e liderança de processos regulatórios. Doutora em Educação e pós-doutora pela USP, reúne sólida base teórica e ampla experiência prática no aprimoramento de políticas e padrões de qualidade no ensino superior brasileiro.
Sua carreira inclui também experiência internacional em docência, avaliação e acreditação. Autora e pesquisadora, dedica-se à formação de profissionais e à análise crítica dos desafios contemporâneos da educação superior, contribuindo para o debate qualificado e para o fortalecimento das instituições de ensino no país.








