Uma pesquisa do Instituto Semesp revelou que o Brasil vive um “apagão” no número de professores na educação básica. Os dados chamaram atenção para os números de professores idosos, e próximos à aposentadoria, na educação básica, consideravelmente maior do que o número de jovens.
A 213ª edição do Boletim Econômico, do informativo mensal do Instituto Semesp, referente ao mês de agosto de 2026, destaca um cenário instável na educação para os próximos anos. Mostrando a precarização da carreira docente que seguem em alta.
Pensando nisso, entrevistamos o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação, Mozart Ramos, para entender as possíveis causas desse “apagão” e entender quais são os riscos para os próximos anos.
Pesquisa Semesp: Projeção de déficit até 2040 preocupa
Com projeção de déficit de 235 mil profissionais até 2040, o Brasil enfrenta um apagão motivado, principalmente, pela baixa atratividade da carreira na educação básica entre jovens e pelo envelhecimento do corpo docente atualmente.
Entre 2015 e 2025, o perfil etário dos professores do ensino médio também mudou. Nesse período, o número de docentes com até 24 anos caiu 31,1%, enquanto o contingente de profissionais com 60 anos ou mais cresceu 104,5%.
A composição dos vínculos de trabalho também apresentou mudanças no mesmo período. Na rede pública, os contratos temporários aumentaram 40,4%, passando de aproximadamente 146 mil para 205 mil. Em contrapartida, o número de professores concursados, efetivos ou estáveis caiu de 305 mil para 255 mil no mesmo período.

Quais são as causas do “apagão”?
Segundo Mozart Ramos, o “apagão de professores” se tornou um problema multifacetado que resulta de uma combinação de fatores estruturais, econômicos e sociais. O presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação destaca um baixo interesse dos jovens em seguir o magistério por causa da precarização do trabalho de professores no Brasil.
Mozart Ramos compara o Brasil com países que têm bons resultados educacionais. De acordo com ele, a prova do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), programa de avaliação educacional internacional, revelou que em outros países a maioria dos adolescentes deseja ser professor, no Brasil apenas 2% dos estudantes que realizaram a prova do PISA manifestaram esse interesse.
Salário
A falta de interesse de ensinar na educação básica, segundo Mozart, se intensifica pela precariedade salarial. Ele afirma que, apesar do salário inicial de professores tenha se tornado mais competitivo, o problema reside na progressão da carreira.
Falta de segurança
Outro fator destacado pelo especialista foi a falta de segurança das escolas. Nos últimos anos, a violência contra os professores tem aumentando significativamente, gerando falta de incentivo para os jovens escolherem a profissão.
Pesquisa realizada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) mostrou um aumento de agressões, ameaças e da sensação de impunidade no ambiente escolar. De acordo com o estudo feito em São Paulo, com mais de 1.144 educadores, expôs que 65,6% professores já sofrerão algum tipo de violência verbal e 19,3% sofrerão física.
Juntamente com a falta de segurança, entram em destaque as condições de trabalho e a saúde do profissional. Mozart Ramoscomenta que a carga horária excessiva, o estresse, o bullying contribuir para o adoecimento dos professores.
Precarização na educação
Mozart Ramos comenta que aumento do número de desistência em cursos de licenciaturas se dá como outro fator que levou aos dados atuais ao baixo número de profissionais jovens na educação.
“Jovens entram na universidade trazendo muitos déficits de aprendizagens. De cada 100 jovens que concluem o ensino médio, só cinco aprenderam o que seria esperado”, comenta Ramos.
Atualmente, cerca de 90% dos ingressantes em licenciaturas estão no ensino à distância (EAD). De acordo com Mozart, críticos apontam que esses cursos muitas vezes carecem da formação prática necessária para o exercício da docência e focam excessivamente na teoria. Para ele isso acarreta em desistência da execução da profissão ao chegar no mercado de trabalho.
Fuga para a pós-graduação
Quando não há desistência por parte dos alunos durante a graduação, e conseguem concluir licenciaturas em áreas críticas, como química e física, os graduandos optam, muitas vezes, por seguir carreira na pesquisa, com pós graduação (mestrado e doutorado), em vez de lecionar na educação básica.
Mozart afirma que os estudantes são atraídos pelas bolsas de pesquisa em Universidades Federais e a flexibilidade nos estudos, comparando ao cenário da educação atual, podem ser mais vantajosas do que o salário de um professor da rede pública.
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Precarização dos salários de professores
Em 2025, professores do ensino médio receberam remunerações médias que variaram conforme a disciplina. Docentes de Filosofia ganharam, em média, R$4.082 por mês, enquanto os de Matemática receberam R$5.726. Já entre os professores de disciplinas pedagógicas, a remuneração média chegou a R$7.294.
Dados do Mapa do Ensino Superior 2024, revelou que o Semesp considera uma jornada de 40 horas semanais para os professores. Isso com base de cálculo salarial. Mas, esses dados não indica uma afirmação da média de trabalho dos professores.
Considerando todas as disciplinas do ensino médio, a remuneração média foi de R$ 6.574 em 2025. O valor representa cerca de 80% da renda média dos trabalhadores brasileiros com ensino superior completo, estimada em R$8,1 mil.
Os valores evidenciam um dos desafios apontados pela 2ª Pesquisa Apagão dos Professores, do Instituto Semesp. Que revela a baixa atratividade financeira da carreira docente, em um cenário de urgência de renovação do quadro de profissionais.
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