“A gente não queria estar de greve. A verdade é essa. A gente está de greve porque encontrou essa dificuldade de comunicação.”
A declaração é da estudante Isabella Oliveira, do 4º ano de Medicina da Faculdade de Medicina de Bauru da Universidade de São Paulo (FMBRU-USP), em entrevista à Diário do Brasil TV. Para ela, a paralisação representa o resultado de uma série de problemas acumulados durante a formação.
A mobilização dos estudantes começou em 21 de setembro, com uma paralisação das atividades acadêmicas. No dia seguinte, 22 de setembro, os alunos aprovaram a primeira greve da história do curso, segundo o movimento estudantil. A decisão teve aprovação de 85,4% dos votos.
Desde então, estudantes e direção da faculdade apresentam versões diferentes sobre o principal ponto que levou à paralisação. Enquanto os alunos afirmam que enfrentam dificuldades para participar das decisões acadêmicas e cobram mudanças na formação prática, a direção sustenta que os estudantes possuem representação nos órgãos institucionais da faculdade e que existem canais formais para apresentação de demandas.
A disputa ocorre em uma faculdade criada recentemente. A FMBRU-USP tem cerca de 30 meses de existência e ainda está em processo de estruturação acadêmica e assistencial em Bauru.
O que os estudantes reivindicam
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Segundo os estudantes ouvidos durante a mobilização, as reivindicações envolvem principalmente a qualidade da formação médica e a relação com a direção da faculdade.
Uma das principais questões é o internato, etapa prática da graduação em que os estudantes passam por diferentes serviços de saúde e têm contato direto com pacientes.
Os alunos relatam falta de preceptores, profissionais responsáveis por acompanhar e orientar os estudantes durante os estágios, além de problemas na organização dos rodízios. Segundo eles, em algumas situações, os locais onde os alunos irão realizar as atividades são informados apenas próximo ao início do estágio.
Os alunos também reivindicam a ampliação dos campos de estágio e maior inserção na rede de saúde de Bauru e de municípios da região.
Outro problema apontado é o transporte para os locais de estágio. Os estudantes citam, por exemplo, atividades em Agudos, município próximo a Bauru, e afirmam que não há transporte institucional suficiente para levar os alunos até esses locais.
A criação de um canal permanente de comunicação com a direção também está entre as reivindicações.
Os estudantes afirmam que, embora tenham representantes nas comissões da faculdade, nem sempre conseguem participar efetivamente das discussões. Eles relatam ainda que as pautas das reuniões seriam encaminhadas com pouco tempo de antecedência, dificultando a discussão prévia entre os alunos.
Segundo Isabella, a intenção da mobilização é estabelecer um diálogo que permita discutir essas questões.
“O que a gente quer é estudar. A gente quer estar em ambientes com bons profissionais, em ambientes em que a gente tenha a possibilidade de diálogo.”


O que diz a direção da faculdade
A direção da FMBRU-USP apresenta uma versão diferente sobre a relação entre os estudantes e a administração.
Em posicionamento divulgado no dia 23 de setembro, o diretor José Sebastião dos Santos afirmou que os alunos possuem representação em todas as comissões da faculdade, no Departamento de Medicina e na Congregação, órgão máximo deliberativo da unidade.
Segundo ele, as decisões mais importantes da faculdade não são tomadas exclusivamente pelo diretor, mas pela Congregação. As reuniões, acrescentou, são transmitidas em tempo real pela internet.
O diretor também afirmou que a faculdade criou uma Comissão de Coordenação do Curso para ampliar a interface entre estudantes e direção.
Em outro posicionamento, divulgado em 25 de setembro, José Sebastião afirmou que a faculdade criou um grupo de trabalho para dialogar com os estudantes e atender às demandas apresentadas.
Ele também declarou que a instituição precisa continuar funcionando e que não permitiria dificuldades para o exercício regular das atividades.

Grupo de trabalho é criado para ouvir os estudantes
Em contato com o Melhores Escolas Médicas, a FMBRU-USP informou que, na última semana, formalizou um Grupo de Trabalho para Oitiva, Sistematização e Encaminhamento das Demandas dos Estudantes.
O grupo reúne representantes de docentes, servidores técnico-administrativos e estudantes.
A criação do GT ocorreu justamente em meio à greve e à cobrança dos alunos por um canal de diálogo direto com a direção.
A faculdade informou que o grupo foi criado para organizar as demandas apresentadas pelos estudantes e encaminhá-las institucionalmente.
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Reunião com a direção acontece nesta segunda-feira
O próximo passo da mobilização ocorre nesta segunda-feira, 28 de setembro.
De acordo com a universidade, uma reunião do Grupo de Trabalho com o diretor José Sebastião dos Santos está prevista para as 18h.
Participarão do encontro representantes discentes eleitos para a Presidência e Vice-Presidência do Centro Acadêmico David Capistrano, representantes das Comissões Estatutárias, do Departamento de Medicina e da Congregação da FMBRU-USP, além de seis estudantes indicados pelo Comitê de Greve.
Segundo a faculdade, a reunião terá como objetivo ouvir e apresentar formalmente as demandas dos estudantes, com itens de pauta definidos, criando um espaço institucional de diálogo entre os alunos e a direção.
Os estudantes, por sua vez, afirmam que a greve deverá continuar até que ocorra uma reunião efetiva com a direção e que suas reivindicações sejam discutidas.

Restrição de acesso ao Hospital das Clínicas
Outro ponto que passou a fazer parte da mobilização envolve o acesso dos estudantes ao Hospital das Clínicas de Bauru.
Segundo relatos dos alunos nas redes sociais, durante a greve teria sido restringido o acesso dos estudantes às dependências do hospital.
Os estudantes afirmam que a medida poderia afetar não apenas atividades acadêmicas, mas também projetos de pesquisa e extensão desenvolvidos dentro da unidade hospitalar.
Eles citam projetos realizados com pacientes, como ações de extensão voltadas à interação e ao acolhimento durante o período de internação.
O Melhores Escolas Médicas entrou em contato com o Hospital das Clínicas de Bauru para esclarecer a situação e aguarda retorno da instituição.
A direção da FMBRU-USP também afirmou, em seu posicionamento do dia 28 de setembro, que cabe à faculdade garantir o funcionamento das atividades assistenciais e de internato e impedir que manifestações interfiram no atendimento aos pacientes.
A instituição declarou ainda que o internato médico envolve atividades assistenciais essenciais e que eventuais alterações devem considerar a segurança dos estudantes e a continuidade da assistência à população.
Atividades acadêmicas devem continuar durante a greve
Em nota oficial divulgada em 28 de setembro, a direção da FMBRU-USP também explicou como pretende conduzir a paralisação dos estudantes.
Segundo a faculdade, a mobilização estudantil não segue exatamente as mesmas regras previstas para uma greve de trabalhadores. Por isso, a direção afirma que deve garantir o acesso às instalações da faculdade e permitir que professores, funcionários e estudantes que queiram continuar suas atividades possam circular normalmente.
A instituição também afirma que está disposta a manter o diálogo com os estudantes. Ao mesmo tempo, diz que esse diálogo deve ocorrer sem atos que a direção considere violentos, coercitivos ou desrespeitosos.
Linha do tempo do caso
21 de setembro de 2026
Estudantes da Medicina da USP Bauru iniciam uma paralisação das atividades acadêmicas. Segundo os alunos, o movimento busca pressionar a direção por melhorias na formação e por maior diálogo institucional.
22 de setembro de 2026
Os estudantes realizam uma assembleia e aprovam a primeira greve da história do curso. A paralisação recebe 85,4% dos votos.
23 de setembro de 2026
O diretor da FMBRU-USP, José Sebastião dos Santos, divulga posicionamento sobre a mobilização. Ele afirma que os estudantes possuem representação nas estruturas institucionais da faculdade e defende a continuidade das atividades acadêmicas.
24 de setembro de 2026
A universidade divulga uma nota oficial na qual apresenta os avanços da faculdade, defende os canais institucionais de participação estudantil e afirma que continuará trabalhando para consolidar a unidade em Bauru.
25 de setembro de 2026
O diretor afirma que a faculdade constituiu um grupo para dialogar com os estudantes e atender às demandas apresentadas. Também declara que a instituição precisa manter o funcionamento regular de suas atividades.
Última semana de setembro de 2026
A FMBRU-USP formaliza o Grupo de Trabalho para Oitiva, Sistematização e Encaminhamento das Demandas dos Estudantes, composto por representantes de docentes, servidores técnico-administrativos e estudantes.
28 de setembro de 2026
Está prevista, para 18h de hoje (28), uma reunião do Grupo de Trabalho com o diretor José Sebastião dos Santos e representantes estudantis, incluindo seis integrantes indicados pelo Comitê de Greve.




























