Discutir as mudanças climáticas também exige compreender as desigualdades sociais e territoriais que ampliam os danos provocados por eventos extremos. Essa relação pode ser explorada na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
Para praticar a argumentação, considere o seguinte recorte: “Desafios para proteger populações vulnerabilizadas diante de eventos climáticos extremos no Brasil”.
O tema pode ser utilizado como eixos de estudo para o Enem 2026, sem ser tratado, exclusivamente como apostas de possíveis questões ou tema da redação. Mas, como estratégias de estudos de assuntos contemporâneo.
Proposta de tema: desafios para proteger populações vulnerabilizadas diante de eventos climáticos extremos no Brasil
Enchentes que destroem moradias, secas que comprometem o abastecimento de água e ondas de calor que afetam a saúde da população são alguns dos desafios relacionados aos eventos climáticos extremos no Brasil.
Entretanto, os impactos dessas ocorrências não atingem todos os cidadãos da mesma maneira.
As condições de moradia, a renda familiar, a infraestrutura dos bairros e o acesso aos serviços públicos podem determinar o quanto uma pessoa está exposta aos riscos e quais recursos terá para enfrentar uma situação de emergência.
Um exemplo foi a tragédia provocada pelas enchentes no Rio Grande do Sul, em maio de 2024.
Segundo o balanço da Defesa Civil estadual, atualizado em agosto de 2025, 478 municípios foram afetados, atingindo aproximadamente 2,4 milhões de pessoas.
O que a redação espera do aluno?
A proposta exige que o estudante discuta por que determinados grupos sociais enfrentam maiores dificuldades diante de enchentes, deslizamentos, secas e ondas de calor.
Mais do que apresentar os problemas ambientais, é necessário investigar como fatores históricos, econômicos e territoriais influenciam a distribuição dos riscos.
Nesse sentido, o candidato pode discutir a desigualdade habitacional, a ausência de infraestrutura urbana, as falhas no planejamento territorial e as limitações dos mecanismos de prevenção.
Vale destacar que esse tema é uma proposta de exercício para ampliar o repertório dos estudantes, e não uma previsão sobre o conteúdo da redação do Enem.
Entenda o problema: clima, exposição e vulnerabilidade social
Antes de construir os argumentos, é importante compreender três conceitos que ajudam a delimitar a discussão.
Fenômeno climático: corresponde a uma ocorrência relacionada às condições atmosféricas e climáticas, como chuvas intensas, secas prolongadas, ondas de calor e tempestades.
Esses fenômenos podem apresentar diferentes magnitudes, durações e consequências.
Exposição ao risco: diz respeito à presença de pessoas, moradias, serviços e estruturas em locais que podem ser atingidos por determinada ameaça.
Uma comunidade instalada próxima a um rio sujeito a transbordamentos, por exemplo, pode apresentar maior exposição a inundações.
Vulnerabilidade social: está relacionada às condições que dificultam a prevenção, a resposta e a recuperação diante de uma situação de risco.
Baixa renda, moradias precárias, falta de saneamento básico e acesso limitado aos serviços públicos podem aumentar essa vulnerabilidade.
Portanto, o problema não está somente na ocorrência de um evento extremo, mas também nas condições que tornam determinadas populações mais suscetíveis aos seus efeitos.
Essa distinção é importante para evitar uma argumentação superficial.

Dois caminhos de argumentação
1. Desigualdade habitacional e ocupação de áreas de risco
A desigualdade no acesso à moradia adequada é um dos caminhos para discutir a vulnerabilidade climática no Brasil.
Em diferentes cidades, famílias de baixa renda enfrentam dificuldades para acessar habitações seguras e bem localizadas.
Nessas circunstâncias, a ocupação de áreas de risco não deve ser interpretada apenas como uma escolha individual dos moradores.
É necessário considerar a falta de alternativas habitacionais, a segregação socioespacial e as desigualdades históricas no acesso à infraestrutura urbana.
Relação de causa e consequência que pode ser utilizada pelos estudantes:
A desigualdade habitacional limita o acesso a moradias seguras e pode levar famílias a ocuparem territórios vulneráveis.
Quando ocorre um evento extremo, essas comunidades ficam mais expostas a perdas materiais, deslocamentos e até mortes.
Na redação, o estudante pode relacionar essa questão à ausência de políticas habitacionais, à desigualdade na distribuição dos serviços públicos e à necessidade de planejamento urbano inclusivo.
2. Insuficiência de prevenção e infraestrutura pública
Outro caminho é discutir as limitações das políticas de prevenção e preparação para desastres.
A ausência de sistemas de drenagem eficientes, obras de contenção, manutenção de rios e canais, monitoramento de áreas vulneráveis e mecanismos acessíveis de alerta pode ampliar os danos provocados por eventos extremos.
Nesse caso, a atuação do poder público também precisa considerar as características de cada território. Regiões com maior concentração de famílias vulnerabilizadas demandam planejamento, infraestrutura e estratégias de proteção adequadas às suas necessidades.
Relação de causa e consequência que pode ser utilizada:
A insuficiência de investimentos em prevenção e infraestrutura reduz a capacidade de resposta das cidades.
Nesse argumento, é possível explorar a responsabilidade dos governos na gestão de riscos e na garantia de condições de segurança para a população.

Repertórios socioculturais para desenvolver o tema
A referência precisa contribuir para a explicação do problema e estar relacionada ao argumento desenvolvido.
Confira duas possibilidades:
1. Livro “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, de Ailton Krenak
Ailton Krenak, escritor e pensador indígena, apresenta em Ideias para Adiar o Fim do Mundo uma reflexão crítica sobre a maneira como a sociedade moderna compreende sua relação com a natureza.
Na obra, o autor questiona a ideia de que os seres humanos estão separados do meio ambiente e critica uma visão de mundo que coloca a humanidade em posição de superioridade em relação aos demais elementos da natureza.
Como relacionar ao argumento: a reflexão pode ser utilizada para discutir a necessidade de repensar o modelo de desenvolvimento e a relação entre sociedade e meio ambiente.
Exemplo de aplicação:
- “Ao questionar a separação entre humanidade e natureza em Ideias para Adiar o Fim do Mundo, Ailton Krenak evidencia a necessidade de repensar a relação da sociedade com o meio ambiente. Sob essa perspectiva, a ausência de planejamento urbano e a ocupação desordenada do território demonstram como a falta de integração entre desenvolvimento e preservação ambiental pode ampliar os riscos enfrentados pelas populações vulnerabilizadas.”
2. Relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC)
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) é uma organização científica internacional vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), responsável por reunir e avaliar pesquisas sobre as mudanças climáticas, seus impactos, riscos e possibilidades de adaptação.
O IPCC discute como a pobreza, a precariedade habitacional e a infraestrutura insuficiente podem ampliar a vulnerabilidade de determinadas populações aos impactos climáticos.
Como relacionar ao argumento: a referência pode fundamentar a discussão sobre desigualdade habitacional e exposição aos riscos.
Exemplo de aplicação:
- “Os estudos reunidos pelo IPCC demonstram que populações de baixa renda podem enfrentar maior exposição e menor capacidade de adaptação aos riscos climáticos. No contexto brasileiro, essa realidade pode ser relacionada à desigualdade habitacional, uma vez que a dificuldade de acesso a moradias seguras contribui para a permanência de famílias em territórios suscetíveis a enchentes e deslizamentos.”
Atenção:o IPCC reúne evidências científicas internacionais. A aplicação ao contexto brasileiro deve ser construída pelo candidato, considerando as características sociais e territoriais do país.
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Tese possível: como organizar os dois argumentos?
A tese é a apresentação do posicionamento que orientará a discussão ao longo do texto. Ela deve indicar quais aspectos do problema serão desenvolvidos nos parágrafos argumentativos.
Para o tema proposto, uma possibilidade é relacionar a desigualdade habitacional à insuficiência de políticas de prevenção.
Exemplo para estudo:
- “A proteção das populações vulnerabilizadas diante dos eventos climáticos extremos no Brasil é dificultada pela desigualdade no acesso à moradia segura e pela insuficiência de investimentos públicos em infraestrutura e prevenção de desastres.”
Nessa formulação, os dois pontos apresentados podem ser desenvolvidos separadamente:
- Primeiro desenvolvimento: discutir como a desigualdade habitacional contribui para a exposição de famílias a enchentes e deslizamentos.
- Segundo desenvolvimento: explicar como a insuficiência de infraestrutura, planejamento urbano e sistemas de alerta amplia os danos e dificulta a recuperação das comunidades.
O importante é que os argumentos apresentados na tese sejam efetivamente explicados nos parágrafos seguintes.

Como construir a proposta de intervenção?
Na conclusão, o candidato precisa apresentar uma proposta de intervenção que contribua para enfrentar o problema discutido. Para isso, é necessário relacionar as medidas às causas identificadas durante o desenvolvimento.
Confira um exemplo de possibilidade:
Fortalecer os sistemas de prevenção e alerta
- Agente: prefeituras, em articulação com a Defesa Civil e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
- Ação: ampliar os mecanismos de monitoramento e comunicação de riscos.
- Meio de execução: instalação de equipamentos de monitoramento, elaboração de rotas de evacuação, divulgação de alertas por diferentes canais e realização de treinamentos comunitários.
- Finalidade: permitir que os moradores recebam informações antecipadas e saibam como agir diante de situações de emergência.
- Detalhamento: adaptar os avisos para pessoas com deficiência, idosos e moradores com acesso limitado à internet, além de realizar simulados periódicos nas comunidades vulneráveis.
A proposta deve respeitar os direitos humanos, especialmente o direito à moradia, à segurança e à dignidade.
Erros que podem enfraquecer a argumentação
Ao desenvolver um tema relacionado às mudanças climáticas, alguns problemas podem comprometer a consistência do texto.
Confira o que evitar:
1. Afirmar que todos os desastres são consequência direta das mudanças climáticas;
2. Responsabilizar os moradores pela ocupação de áreas de risco;
3. Tratar as mudanças climáticas apenas como um problema ambiental;
4. Utilizar repertórios sem explicar sua relação com o tema;
5. Apresentar uma intervenção genérica.
| CALENDÁRIO ENEM 2026 | |
| Prazo das inscrições: | Encerrou 12 de junho de 2026 |
| Pagamento da taxa de inscrição (R$ 85,00): | 25 de maio a 22 de junho de 2026 |
| Atendimento especializado (solicitação): | 25 de maio a 12 de junho de 2026 |
| Aplicação das provas (1º e 2º dias): | 8 e 15 de novembro de 2026 |
| Divulgação do gabarito oficial: | Até 30 de novembro de 2026 |
| Resultado final: | Janeiro de 2027 |
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