Na última semana, um vídeo de um paciente cantando enquanto estava sendo operado viralizou e levantou a seguinte questão: por que algumas cirurgias no cérebro precisam ser feitas com o paciente acordado?
O cantor Lincoln Furtado, também conhecido como Maldonado, de 33 anos, descobriu a presença de um tumor em março deste ano. O glioma de baixo grau é um tumor de crescimento lento, que representa 30% dos tumores cerebrais e se origina nas células da glia, responsáveis por proteger e nutrir os neurônios. Em alguns casos, quando diagnosticado precocemente, o tumor pode ser tratado com sucesso e controlado por muitos anos.
Sintomas do glioma de baixo grau
Os sintomas podem variar, dependendo da localização e do tamanho do tumor. Porém, entre os sinais mais comuns, estão a presença de convulsões, dores de cabeça frequentes, alterações na fala e fraqueza/dormência em um lado do corpo.
Outro sintoma que também tem ligação direta com o tumor, e que foi o motivo de Lincoln ter desconfiado de que algo não estava certo, são os problemas de memória e atenção. De acordo com o cantor, a suspeita começou quando esqueceu alguns fundamentos e nomes. “[Esquecia] Algumas coisas desse tipo. Falava: Mano, o que está acontecendo comigo?”.
Foi quando buscou ajuda com o doutor Victor Batistela, o mesmo médico que tinha cuidado do seu pai há três anos atrás, quando tinha descoberto a mesma doença.
Cirurgia com paciente acordado
Victor Batistela foi quem comandou a cirurgia de Lincoln, realizada no Hospital do Câncer de Londrina, com o auxílio de sete médicos e uma duração de mais de 6 horas. Em seu perfil no Instagram, o médico falou sobre a primeira cirurgia realizada com o paciente acordado, o qual é chamado de Awake Surgery.
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De acordo com Batistela, “essa é uma técnica que permite remover tumores localizados em áreas nobres do cérebro, preservando funções essenciais como a fala, a linguagem e os movimentos”, que permite que o paciente colabore com a equipe de cirurgia ao conversar e realizar testes, possibilitando uma remoção mais segura.
“Nós fazemos testes para ver como a fala dele está ou não prejudicada antes da cirurgia. Esses testes são repetidos durante a cirurgia, passo a passo, enquanto nós ressecamos o tumor para garantir que nós conseguimos ressecar o máximo possível do tumor e ter a menor sequela ou até mesmo sequela nenhuma com o paciente”, explica Batistela.
Relação da música com o cérebro
Durante o procedimento, Lincoln tocou a música “Chora Viola” e auxiliou, de acordo com o neurocirurgião responsável, a mapear a linguagem, uma das funções mais importantes do cérebro.
Em casos como esse, cantar permite que a equipe cirúrgica mapeie em tempo real as funções cerebrais. Ou seja, se houvesse qualquer alteração neurológica, os cirurgiões poderiam identificar imediatamente através da fala de Lincoln. Para isso a cirurgia conta com a presença fundamental de uma equipe de monitorização neurofisiológica e de fluência verbal.
Outros casos de cirurgia com paciente acordado
Em fevereiro desse ano uma cirurgia como essa também era realizada pela primeira vez, no Hospital de Câncer de Pernambuco (HCP). O procedimento foi feito em Erinaldo José de Souza, de 41 anos, que foi encaminhado ao HCP após sentir fortes dores de cabeça e crises de convulsão. A cirurgia foi conduzida pelo neurocirurgião Bruno Leimig com o apoio da fonoaudióloga Deluana Cunha.
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No início de 2025, o Hospital Unimed de Santarém também estabeleceu um marco na neurocirurgia do unidade ao realizar a cirurgia com o paciente acordado. O paciente de 30 anos, que não teve nome divulgado, descobriu um tumor cerebral localizado na área que comanda falas, movimentos, audição e visão. A cirurgia foi realizada pelo neurocirurgião João Fabrício, com uma duração de aproximadamente 8 horas.
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1º cirurgia no SUS de São Bernado
Um pouco antes, em janeiro, quem realizava pela primeira vez a cirurgia cerebral com paciente acordado foi o Hospital das Clínicas de São Bernado. A técnica foi utilizada para retirada de um tumor do cérebro que estava localizado no lobo frontal direito, próximo a altura da orelha. Foi a primeira vez que a cirurgia foi realizada no Sistema Único de Saúde (SUS) do município.
O paciente, Gilmar Felisberto dos reis, de 51 anos, relatou que sentiu um formigamento no lado esquerdo do rosto e dificuldade para alcançar a manivela de descer o vidro do carro. Foi quando decidiu consultar um neurologista. “Tive receio de ter tido um AVC (Acidente Vascular Cerebral). O exame mostrou um tumor de três milímetros“, relatou.
O neurocirurgião Marcos Rêgo foi o responsável pela cirurgia, com duração de cinco horas.
























