Em um cenário geral, desde a pandemia do Covid-19, a prevalência global de depressão e ansiedade aumentou em 25%, de acordo com um estudo publicado em 2022 pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Duas vezes mais comum em mulheres, a depressão continua a ocupar a primeira posição entre os transtornos mentais mais diagnósticados.
No recorte estudantil, o estudo Learning Environment, Academic Stressors, and Institutional Aspects as Determinants of Mental Health Outcomes in Medical Education publicado na Brazilian Journal of Psychiatry (em português, Revista Brasileira de Psquiatria) mostrou que 2/3 (66%) dos estudantes brasileiros de medicina apresentam, com uma frequência preocupante, sintomas de depressão e ansiedade, em um nível moderada a grave.
A pesquisa ouviu, ao todo, 1.026 estudantes, com 18 anos ou mais, de 74 instituições públicas e privadas. A participação foi totalmente voluntária, com anonimato preservado durante todo o processo.
Em comparação com índices globais, o Brasil está acima da estimativa de sintomas depressivos em estudantes de medicina. No mundo, 27,2% dos estudantes da área possuem depressão e 33,8% ansiedade.
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Para a estudante do 4º período de Medicina, Ana Luísa Sena, de 19 anos, a alta pressão psicológica do curso de Medicina é um dos pontos que mais geram cansaço em sua rotina. Medicina é considerado um dos cursos mais difíceis não só do Brasil, mas sim do mundo; junto ao status da profissão, também vem a pressão, tanto nas matérias a serem aprendidas no pré-vestibular quanto aquelas que estão nas salas de aula do próprio curso.
O psicólogo Leandro Cruz afirma que a carga horária do curso de Medicina é um dos fatores cruciais para o desenvolvimento de sintomas de ansiedade ou depressão. Por ter bastante conteúdo, o estudante começa a sentir a necessidade de precisar dar conta de tudo.
Para ele, a formação em Medicina não está mais preparando o aluno para ter um pensamento crítico, mas sim para fazer prova e obter uma determinada nota. “O aluno entra na pressão de precisar de uma nota, então começa a ter um estudo mais automático. Não é mais prazeroso”, afirma o psicólogo.
Outro ponto que Ana traz sobre sua vida acadêmica é a privação de sono e a falta de tempo com os familiares e amigos. Dr. Leandro também concorda com isso. A falta de uma presença mais constante da família, dos amigos e de uma vida social acaba pesando muito para esses estudantes, uma vez que agora entendem que todo o foco deve ser direcionado apenas para os estudos.
“E eles também já entram no curso com essa crença de ‘eu não posso falhar’. Então, se eu tenho esse pensamento, eu vou ter um desencadeamento de emoções. Eu vou começar a desencadear emoções, como ansiedade, como medo, e isso vai começar a afetar o meu corpo. E aí daqui a pouco eu já vou começar a entrar num processo de adoecimento.”
Quais os ambientes mais associados ao surgimento dos sintomas?
Para avaliar os sintomas depressivos, a pesquisa utilizou um instrumento de autorrelato chamado Patient Health Questionnaire-9 (PHQ-9), composto por nove itens que rastream a classificação da gravidade da depressão em uma escala de pontuação que varia de 0 a 27. Já para avaliar a ansiedade, o intrumento utilizado foi o Generalized Anxiety Disorder-7 (GAD-7), que contém sete itens com pontuação de 0 a 3.
Um dos fatores que foram investigados na pesquisa foi quanto à estrutura e relação com corpo docente. Estudantes de universidades privadas relataram um ambiente de aprendizagem mais positivo quando comparado com as públicas. Os pontos de mais ênfase foi o bom relacionamento com o corpo docente e o clima acadêmico.
Diante disso, Dr. Leandro destaca a importância de locais acolhedores dentro das instituições de ensino. Ele traz, ainda, uma comparação: existem, no Brasil, instituições particulares de ensino que já buscam oferecer centros de saúde emocional para os alunos. Um ambiente em que se pode ter um momento de descompressão antes de voltar a rotina agitada de estudos. No entanto, essa mesma realidade não é percebida na maioria das instituições públicas de ensino.
“Imagine um aluno que já está com uma taxa elevada de sintomas de ansiedade e com aquela pressão em cima dele. Se ele não conta com um ambiente iluminado, um ambiente acolhedor, um espaço de escuta, esse aluno vai se sentir totalmente angustiado, e isso vai corroborar bastante para o estresse dele”, conclui o psicólogo.
Outro ponto foi relacionado à forma de ingresso: os pesquisadores analisaram que estudantes que entraram por cotas tiveram pontuações mais altas em sintomas depressivos e níveis mais elevados de estresse acadêmico. Já estudantes bolsistas apresentaram pontuações mais baixas acerca de colaboração entre colegas e engajamento nas aulas.
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