A Federação Internacional de Diabetes (IDF) reconheceu, em 2025, uma nova classificação para o diabetes: o de tipo 5. Associada à desnutrição crônica, essa é a quinta condição reconhecida pela IDF, juntamente com os tipos 1, 2, 3c e diabetes gestacional. Descrita pela primera vez há 71 anos, a condição ainda não havia entrado nos documentos oficiais da IDF.
Agora, após o reconhecimento internacional, o diabetes tipo 5 começará a ser rastreado também no Brasil. O levantamento começará pelas regiões Norte e Nordeste, locais onde a proporção de domícilios com insegurança alimentar é maior (respectivamente 37,7% e 34,8%), segundo dados do módulo Segurança Alimentar da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua.
O que é o diabetes tipo 5
Anteriormente conhecido como diabetes mellitus relacionado à desnutrição (DMRD), esse é um tipo distinto de diabetes relacionada à desnutrição crônica durante a adolescência e início da idade adulta, que causa uma capacidade reduzida da produção de insulina no organismo. Essa é uma doença que acomete, principalmente, indivíduos jovens com menos de 30 anos e de baixo peso, geralmente com o Índice de Massa Corporal (IMC) abaixo de 19 kg/m².
Por aparecer em pessoas mais jovens, esse tipo muitas vezes é confundido com o diabetes mellitus tipo 1 (DM1), mas as semelhanças entre as condições acabam na faixa etária.
Enquanto o tipo 1 é uma doença autoimune que destrói as células beta, o tipo 5 está relacionado a uma menor formação das células beta pancreáticas, que são as responsáveis por produzir a secreção da insulina em resposta ao aumento da concentração de glicose no sangue.
Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), esse tipo também já foi chamado de diabetes tropical, por aparecer mais frequentemente em países tropicais, e diabetes tipo J, pelo primeiro caso ter sido registrado na Jamaica, em 1955.
Causas do diabetes tipo 5
Segundo a IDF, a principal causa do diabetes tipo 5 é a desnutrição prolongada, principalmente durante a primeira infância e a adolescência do indivíduo. Estão relacionados à isso a:
- Má nutrição materna durante a gestação: afeta o crescimento fetal e o desenvolvimento do pâncreas;
- Deficiências nutricionais: podem prejudicar a capacidade do pâncreas de produzir insulina;
- Infecções recorrentes: podem contribuir para o baixo crescimento e para as deficiências nutricionais;
- Acesso inadequado a alimentos nutritivos: adultos que vivenciam períodos prolongados sem alimentação nutritiva apresentam um risco maior de desenvolver o diabetes tipo 5;
A situação habitacional também está associada à condição. Refugiados e migrantes com poucos recursos também podem estar em risco, mesmo após a reinstalação do indivíduo em países de alta renda.

Sintomas e tratamento do diabetes tipo 5
Os principais sintomas do diabetes tipo 5 estão relacionados ao aumento de sede, maior frequência ao urinar, cansaço/fadiga, visão turva, perda de peso inexplicável e aumento da fome. Bastante semelhantes ao do diabetes tipo 1, esses sintomas contribuem para que as condições sejam confundidas e tratamentos incorretos sejam feitos nos indivíduos.
Pessoas com o diabetes tipo 5, quando diagnosticadas com o tipo 1, frequentemente iniciam o tratamento com insulina e medicamentos orais. No entanto, essas terapias não são aquelas recomendadas para o tratamento da diabetes tipo 5, pois não tratam o problema principal que é a produção de secreção de insulina causada pela desnutrição crônica.
O tratamento do diabetes tipo 5 tem como foco a melhoria do estado nutricional e a manutenção de níveis saudáveis de glicose no sangue. Por ser um tipo de diabetes associado à desnutrição, seu tratamento deve incluir suporte nutricional para correção da desnutrição crônica, medicamentos orais para diabetes que estimulam a secreção de insulina e terapia com insulina em baixa dose, somente quando apropriado.
De acordo com o IDF, as pesquisas para tratamento ainda estão sendo desenvolvidas. Por isso, quando diagnosticado, os planos de tratamento devem ser individualizadose orientados por profissional de saúde.
Diagnóstico do diabetes tipo 5
Para diagnosticar o diabetes tipo 5, e conseguir diferenciar ele do tipo 1, geralmente são feitos dois exames: a dosagem de anticorpos contra o pâncreas (que são presentes no tipo 1 e geralmente negativos no tipo 5) e a análise da reserva de insulina medida pelo peptídeo C.
No diabetes tipo 1, essa reserva é esgotada muito rápido. Já o tipo 5 ainda conta com alguma produção de insulina, mesmo em quantidade quase insuficiente.
Principais diferenças entre os tipos de diabetes
| CARACTERÍSTICAS | DIABETES TIPO 1 | DIABETES TIPO 2 | DIABETES TIPO 5 |
| Causa principal | Destruição autoimune das células beta | Resistência à insulina + declínio progressivo das células beta | Desnutrição crônica/disfunção pancreática |
| Tipo físico | Qualquer um, porém geralmente magro no momento do diagnóstico | Frequentemente com sobrepeso/obesidade | Geralmente magro, com baixo IMC e histórico de desnutrição |
| Autoanticorpos | Frequentemente positivos | Geralmente negativos | Geralmente negativo |
| Produção de insulina | Muito baixa ou ausente | Pode estar presente, especialmente no início | Pode haver produção residual |
| Tratamento | Insulina desde o diagnóstico | Mudanças no estilo de vida e medicamentos orais (insulina pode ser necessária) | Suporte nutricional e terapida personalizada (pode ser necessário o uso da insulina, mas em doses menores) |
| Risco de cetonas | Maior risco se não tratada | Risco menor | Pode ocorrer dependendo da gravidade e do indivíduo |
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Diabetes tipo 5 no Brasil
Segundo o médico e diretor da Sociedade Brasileira de Diabetes, Fernando Valente, o Brasil ainda não possui dados de prevalência de diabetes tipo 5. “Talvez existam casos, mas possivelmente estejam rotulados como DM1 por causa da sobreposição de características, como a idade precoce de aparecimento do diabetes e o baixo IMC”. Ou seja, os prováveis casos que tenham no Brasil estão diagnosticados como DM1, pela forte semelhança entre os dois tipos.
A vice-presidente global da IDF e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Hermelinda Cordeiro Pedrosa, declara que agora com a visibilidade da condição, o tratamento do diabetes tipo 5 pode ser mais adequado. “A IDF dá agora visibilidade a uma condição há muito negligenciada. Precisamos identificar essas pessoas, corrigir classificações equivocadas e avançar para um tratamento mais adequado às características desse tipo de diabetes.”
O rastreio da doença no Brasil será feito inicialmente nas regiões Norte e Nordeste, através de estudos produzidos no país pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A iniciativa é articulada pela IDF, em parceria com a SBD, SBEM e Fiocruz, e buscam identificar diagnósticos errados em pessoas com diabetes tipo 5.
























