Os maiores hospitais privados do país estão ampliando sua atuação no ensino superior ao oferecer cursos de Medicina dentro das próprias unidades hospitalares, com mensalidades que chegam a R$ 13mil. O movimento ganhou força após a publicação de um edital do Ministério da Educação (MEC), em 2024, que criou um chamamento específico para instituições de ensino superior mantidas por grupos hospitalares.
Desde então, hospitais como Sírio-Libanês, Moinhos de Vento, Rede D’Or e Beneficência Portuguesa avançaram em autorizações e habilitações, enquanto o Albert Einstein, que abriu seu curso em 2016, aparece como um dos casos mais consolidados desse modelo.
A expansão das vagas marca uma mudança relevante no mercado de formação médica no Brasil. Isso porque o edital voltado aos hospitais estabeleceu uma porta regulatória própria para esses grupos, separada das regras aplicadas às demais instituições privadas de ensino.
Edital do MEC criou caminho específico para hospitais
O chamamento público foi publicado pelo MEC em 30 de abril de 2024, por meio do Edital nº 5/2024. O texto trata da habilitação de instituições de educação superior já credenciadas e mantidas por mantenedoras de unidades hospitalares para que possam pedir autorização de funcionamento de graduação em Medicina.
Pelas regras, a instituição de ensino e o hospital precisam pertencer à mesma mantenedora. Além disso, o edital também exige que o hospital tenha mais de 400 leitos próprios, residência médica em pelo menos dez especialidades, convênio com a rede do SUS e proporção mínima de cinco leitos SUS por vaga autorizada.
Apesar dessas exigências, representantes do setor de ensino superior avaliam que o modelo dado aos hospitais foi mais flexível do que o aplicado a faculdades privadas em geral. A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) afirma que há desequilíbrio regulatório.
“Entre os principais pontos que evidenciam essa flexibilização estão a dispensa de proporção mínima de cinco leitos por vaga e o indicador de médicos por mil habitantes, ambos tratados como inegociáveis no edital vigente para as instituições de ensino privadas”, diz Janguiê Diniz, diretor-presidente da ABMES.
Quem já abriu curso e quem avançou no processo
O caso mais antigo entre os grandes hospitais privados é o do Albert Einstein, que iniciou sua graduação em Medicina em 2016. A instituição cobra mensalidade de R$ 13 mil e, no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) de 2025, obteve nota máxima.
Mais recentemente, o Sírio-Libanês recebeu autorização em 2024 e também passou a cobrar cerca de R$ 13 mil por mês. A primeira turma começou em 2025, com cem estudantes.
Em 2025, o Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, também foi autorizado. Já em 2026, houve novos avanços para a Rede D’Or, no Rio de Janeiro, e para a Beneficência Portuguesa, em São Paulo. No caso da Rede D’Or, o Instituto D’Or (Idor) foi habilitado em março e aguarda a análise, pelo MEC, do projeto pedagógico protocolado para viabilizar o início das atividades no primeiro semestre de 2027.
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Por que os hospitais entraram no mercado de formação médica
Para os grupos hospitalares, a entrada na graduação médica tem relação com a possibilidade de formar profissionais dentro de um ambiente assistencial já estruturado, com acesso a prática clínica desde os primeiros períodos e conexão com a própria rede de saúde.
“A formação médica de qualidade exige uma imersão contínua na prática clínica real. A proximidade de um hospital com o curso permite que o estudante vivencie, desde cedo, a complexidade do cuidado em saúde, compreendendo o paciente de forma integral e desenvolvendo competências que não podem ser plenamente adquiridas apenas em sala de aula”, defende Christian Morinaga, coordenador do Curso Médico da Faculdade Sírio-Libanês.
No Albert Einstein, a justificativa também passa pela formação de profissionais para atuação nas próprias unidades e pela estratégia institucional de expansão na área de saúde.
“O Einstein decidiu abrir o curso a partir do momento que que foi crescendo como hospital e conseguindo entregar excelência em saúde e viu necessidade de formar profissionais para atuar nas nossas unidades de saúde e para melhorar a saúde do país” afirmou Elda Maria Stafuzza Gonçalves Pires, coordenadora acadêmica da graduação em Medicina do Einstein.
Como funciona a formação dentro dos hospitais e no SUS
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O modelo defendido pelos hospitais aposta na combinação entre estrutura própria de alta complexidade e vivência em serviços públicos de saúde. No Sírio-Libanês, por exemplo, a unidade Bela Vista é usada pelos estudantes desde o início da graduação. Em redes como Einstein e Sírio, parte da formação também pode ocorrer em equipamentos do SUS administrados por essas instituições.
No caso da Rede D’Or, a proposta já apresentada ao MEC prevê uma divisão mais clara entre os cenários de prática. Segundo a instituição, a rede pública deverá concentrar a experiência em atenção primária, enquanto os hospitais privados do grupo serão utilizados sobretudo para média e alta complexidade.
“Na rede SUS, os alunos vão vivenciar especialmente a atenção primária. Já nos nos hospitais da Rede D’Or, priorizaremos o acesso a média e alta complexidade”, explica Jerson Lima Silva, Diretor de Ensino do Idor.
O edital do MEC também determina que ao menos 10% da parte prática do curso ocorra dentro da própria estrutura hospitalar da mantenedora. Essa carga pode incluir estágios curriculares e atividades de extensão.
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Debate sobre concentração de vagas e efeito no Mais Médicos
A abertura de cursos de Medicina em hospitais ocorre em meio a críticas de especialistas sobre a concentração de vagas em localidades que já têm grande oferta de médicos e faculdades. Para esse grupo, o edital específico criou uma exceção regulatória com base mais política do que técnica.
“Pelo perfil dos hospitais, eles têm toda capacidade de formar bons médicos, mas a decisão de um edital específico para eles foi político; não técnico. As cidades que estão recebendo esses cursos já têm outras graduações e muitos profissionais”, avalia Mário Scheffer, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de São Paulo (USP) e pesquisador da área de ensino médico.
Já o diretor-executivo da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), Antônio Britto, argumenta que abrir cursos apenas em regiões com escassez de médicos não garante que eles vão ficar nessas áreas.
“Um programa bem intencionado para interiorizar o médico precisa oferecer nesses lugares condições para que a pessoa recém-formada permaneça. Parte dessas condições é ter um bom hospital para ter boa perspectiva profissional. A outra parte é salário, escola para o filho, condição de vida”, defendeu Brito.
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O que diz o MEC
Em nota, o MEC afirma que o edital voltado a hospitais está previsto na legislação do Mais Médicos e que, nesse caso, a abertura dos cursos não segue o critério de demografia médica.
Segundo o ministério: “A abertura de cursos em unidades hospitalares não se dá pelo critério de demografia médica, mas sim pela excelência dos serviços prestados pela instituição e pela existência de equipamentos públicos adequados e suficientes para a oferta da graduação”.
Com isso, a tendência é que novas autorizações continuem sendo analisadas nos próximos meses, mantendo aquecido o debate sobre a expansão de vagas e o papel dos grandes hospitais privados na formação dos futuros médicos do país.
Com informações do jornal O Globo.









