Por ano, chegam ao mercado cerca de 46 mil novos médicos, vindo de todas as faculdades de medicina espalhadas pelo nosso país. Mesmo com essa quantidade de novos médicos, apenas uma parcela opta pela residência médica, que prepara e forma o profissional em especialista em determinada área.
Dados levantados pela Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) junto aos órgãos públicos e autarquias mostram que haviam 106.536 profissionais registrados no Conselho Regional de Medicina do Estado (Cremesp) em 2011. Em 2024, foram registrados 166.415.
De acordo com dados da Demografia Médica do Brasil, ligado ao Conselho Federal de Medicina (CFM), entre 2018 e 2024 o aumento de alunos de medicina foi de 71,2%. Enquanto, o percentual inserido nos cursos de especialização foi de 26,4%.
Os números apresentados explicam o porque mesmo com a chegada de novos médicos falta mão-de-obra especializada, principalmente em serviços de emergência. Muito provavelmente, os médicos recém formados não estão necessariamente em especializações.
Na sala de emergência

A medicina de emergência é uma das especialidades menos concorridas do país. A quantidade de médicos de emergência registrados no Brasil em 2024 foi de 917, o que corresponde a 0,2% do total de especialidades, segundo os dados da Demografia Médica Brasileira. De acordo com o Painel da Educação Médica, a especialidade conta com mais de 700 vagas ociosas e apenas 650 vagas ocupadas.
Apesar da alta demanda por atendimentos de urgência e emergência, grande parte dos plantões nos hospitais brasileiros não é ocupada por médicos especialistas em Medicina de Emergência. Na prática, é comum que esses serviços sejam conduzidos por recém formados, clínicos gerais ou profissionais de outras especialidades que atuam temporariamente nas portas de urgência.
Esse cenário ocorre, principalmente, pela quantidade ainda insuficiente de emergencistas no país. Embora esses profissionais tenham formação médica e estejam aptos ao exercício da profissão, a ausência de treinamento especifico em emergência pode representar desafios diante de casos graves e de alta complexidade. Já que exigem decisões rápidas, trabalho em equipe e domínio de protocolos específicos.
Veja o episódio do MEM Entrevista com Pedro Figueiredo:
Impactos dessa escassez
A falta de especialistas em Medicina de Emergência gera reflexos tanto para os pacientes quanto para a gestão hospitalar. Com menos profissionais especializados nas equipes, aumenta a dificuldade para organizar o fluxo de atendimento e responder com rapidez aos casos mais críticos.
Entre os principais impactos estão o aumento do tempo de espera, maior dificuldade na tomada de decisões clínicas, atrasos no diagnóstico e no início do tratamento. Além de transferências de pacientes que poderiam ser evitadas, caso houvesse maior capacidade resolutiva no próprio serviço.
Para os hospitais, esse cenário também pode resultar em aumento dos custos operacionais e maior permanência de pacientes nas unidades de emergência. Assim como, sobrecarga das equipes multiprofissionais, que passam a lidar com uma demanda crescente em um ambiente já marcado pela alta pressão assistencial.
Conecta Emergência
Criado para apoiar médicos que atuam em unidades de urgência e emergência, o Conecta Emergência faz a ligação, em tempo real, profissionais de plantão a especialistas em Medicina de Emergência. Segundo o Dr. Pedro Figueiredo, coordenador do programa e médico emergencista, a iniciativa surgiu para suprir a falta de emergencistas no Brasil. Um cenário em que muitos recém-formados acabam assumindo plantões sem experiência específica na área.

Na prática, o médico pode acionar o suporte por meio de um sistema próprio ou pelo WhatsApp. Em poucos minutos, um especialista em emergência analisa o caso e auxilia na tomada de decisão, sem a necessidade de compartilhar dados sensíveis do paciente. Assim, garantindo conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
De acordo com Pedro, o principal objetivo é qualificar o atendimento e oferecer mais segurança para quem está na linha de frente. “A gente consegue apoiar esses médicos com emergencistas de prontidão para discutir casos clínicos e tornar a tomada de decisão mais rápida e mais assertiva”, afirma.
Além de fortalecer a atuação dos profissionais, o programa contribui para um atendimento mais resolutivo aos pacientes. Dessa forma, reduzindo transferências e internações desnecessárias, principalmente em municípios que enfrentam dificuldade para contar com médicos especialistas.
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