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O dragão de sete bocas: a sabedoria antiga por trás da longevidade

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Ambulatório de Medicina de Estilo de Vida e Longevidade Saudável do Hospital Moinhos de Vento

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Na parábola “O Paciente Curado”, publicada em 1810 no seu famoso almanaque, o pastor e teólogo luterano Johann Peter Hebel (1760-1826) apresenta um homem extraordinariamente rico em Amsterdã que sofria de “365 doenças” — uma para cada dia do ano. Seu cotidiano era um monumento ao sedentarismo e aos excessos: passava as manhãs na poltrona fumando tabaco, quando não estava com preguiça até de encher o cachimbo; almoçava como um camponês recém-chegado do campo; e gastava as tardes beliscando pratos frios e quentes, não por fome, mas para preencher o tempo até o jantar. À noite, desabava na cama exausto, como se tivesse passado o dia carregando pedras e cortando lenha.

Com o tempo, seu corpo tornou-se disforme como um saco de milho. Comer e dormir viraram tribulações, e ele buscava a salvação na polimedicação: engolia potes inteiros de misturas, pós às pás e comprimidos do tamanho de ovos de codorna, até ficar conhecido como uma “farmácia ambulante”.

Nada funcionava — recusava-se a seguir qualquer prescrição, esbravejando contra a incompetência dos médicos que não conseguiam curá-lo, apesar de toda a sua fortuna. Queria comprar com dinheiro a saúde que suas próprias escolhas diárias destruíam.

A reviravolta veio quando ele ouviu falar de um médico que morava no campo, a cem horas de caminhada dali. Sabendo que o mal do paciente vinha da falta de moderação e movimento, o sábio doutor lhe enviou uma carta com um diagnóstico cirúrgico para a mentalidade daquele homem — um engano lúdico transformado em ferramenta terapêutica:

“Você está realmente em mau estado, mas ainda pode ser ajudado. Você tem uma criatura desagradável no estômago, um verme-da-índia com sete bocas. Preciso lidar com ele pessoalmente, mas há condições: não venha de carruagem ou a cavalo, mas sim com solas de couro, caso contrário o movimento perturbará o verme e ele roerá suas entranhas. E coma no máximo um prato de legumes duas vezes ao dia, com uma linguiça ao meio-dia e um ovo à noite.”

O terrível parasita invocado pelo doutor — que na imaginação popular flertava com as lendas de um lindworm, o mítico dragão serpentino — despertou no homem o medo ancestral de uma possessão. Movido pelo pavor da morte, o paciente mandou encerar as botas e partiu a pé.

No primeiro dia, moveu-se mais devagar que um caracol, ignorando quem o cumprimentava. Mas ao longo da jornada de dezoito dias, o exercício ao ar livre e a restrição calórica foram operando o milagre: na metade do caminho, já achava o canto dos pássaros mais doce e o orvalho mais fresco. Caminhava com vigor. Ao chegar ao consultório, sentia-se perfeitamente saudável.

O médico rural validou a própria história para garantir que ela durasse: “O verme se foi. Mas os ovos dele ainda estão dentro de você. Por isso, deve voltar para casa a pé e, quando chegar, precisa serrar muita lenha onde ninguém o veja, comendo apenas o suficiente para saciar a fome — assim os ovos não eclodirão, e você poderá viver até uma idade avançada.” O paciente entendeu o espírito da lição, mudou sua rotina e viveu com saúde de ferro até os 87 anos, quatro meses e dez dias.

Xilogravura de Carl Stauber, de 1888, ilustra o conto “O Paciente Curado”, publicado por Johann Peter Hebel.

Essa parábola bem que poderia figurar como o “caso clínico” fundador de uma iniciativa contemporânea: o Ambulatório de Medicina de Estilo de Vida e Longevidade Saudável do Hospital Moinhos de Vento. Ali, integrado a um centro de alta complexidade, o foco se desloca da simples remissão de sintomas para prevenir doenças crônicas e promover bem-estar. A longevidade real vai além de viver mais anos — o que a ciência chama de lifespan. Ela é uma existência plena e qualitativa, com a autonomia do indivíduo preservada por escolhas conscientes: o healthspan, nossa expectativa de vida saudável.

Há uma ironia nisso: a busca pelo que há de mais inovador acaba nos conduzindo, sutilmente, de volta às raízes. O próprio Hospital Moinhos de Vento nasceu em 1927 como o Deutsches Krankenhaus, o Hospital Alemão, fruto do esforço de uma comunidade porto-alegrense de forte matriz luterana e do trabalho vocacionado das Schwesters — as irmãs diaconisas que trouxeram da Alemanha a base do cuidado e do acolhimento hospitalar.

É justamente nessa Alemanha protestante que Hebel, hoje reconhecido como um dos maiores contadores de histórias da língua alemã, escrevia em sua Baden natal com um paternalismo afetuoso, voltado para a educação de um público amplo — uma sabedoria bem-humorada que mais tarde despertaria a admiração de gigantes como Tolstói e Kafka.

Hoje, a abordagem integral e personalizada do novo ambulatório dá embasamento científico ao “verme de sete bocas” do teólogo alemão. O que o médico do conto fez de forma empírica e intuitiva foi antecipar os pilares da Medicina de Estilo de Vida (MEV) que hoje orientam o serviço moderno: mexeu na alimentação e impôs atividade física com as solas de couro e o cortar lenha, cuidou do sono, manejou o estresse e o tédio, cortou os excessos e trouxe o paciente de volta ao convívio social ao fazê-lo interagir de novo com o mundo exterior.

O Deutsches Krankenhaus do passado, sustentado pelo zelo das Schwesters, e o Moinhos de Vento do presente se encontram na mesma sabedoria secular: o cuidado com a longevidade é inovador e clássico ao mesmo tempo. Para viver muito e melhor, o segredo não está em pílulas mágicas que patrocinem nossos excessos, mas em gastar as solas de couro, redescobrir a moderação no prato e manter sob vigilância os ovos daquele dragão de sete bocas que a rotina insiste em despertar.

*Para Alexander Welaussen Daudt, idealizador do ambulatório, e em memória do exemplo terno e inspirador de sua jovial e centenária avó, D. Cecy.

Autor: Fernando Neubarth – chefe do Serviço de Reumatologia do Hospital Moinhos de Vento

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