História do aprovado: Medicina na UFRB

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Conheça a história de Matheus Moreira, um jovem baiano de 26 anos que passou no curso de Medicina na UFRB.

Fonte: Matheus Moreira/Instagram

Negro, de comunidade quilombola e nordestino. Não, isso não é uma matéria de romantização, e sim, de aclamação! 

  • “Larga disso, menino doido!”

Aos 15 anos, Matheus olhou para a mãe e disse: “mãe, quero ser médico!”. A mãe prontamente respondeu: “larga de ser doido, menino”, porém o que ela não sabia é que, 11 anos depois, ele teria dado o primeiro passo para alcançar esse sonho. Matheus é o mais velho de 6 irmãos e um deles teve meningite meningocócica. Ao ver esse irmão muitas vezes sem acesso a um atendimento médico de qualidade, a vontade de se tornar um médico que fosse útil à população só cresceu dentro dele. 

  • O início de tudo

Começou a estudar em 2013, enquanto estava no 3º ano do ensino médio. Sempre estudou em escola pública e, por isso, afirma que não tinha ideia do que era estudar para Medicina, sequer possuía um método de estudos para isso. Além da base inadequada (até porque todos sabemos que a educação pública no Brasil carece de investimento e atenção), Matheus não tinha tempo livre para estudar de forma integral, pois trabalhou desde sempre como carregador e vendendo geladinho. Apesar de já ter plantado esse sonho no coração, a incerteza e sensação de incapacidade permaneciam em Matheus, o que fez com que ele optasse por cursar Enfermagem depois de ter acabado o ensino médio.

  • Fazia Enfermagem, mas o coração ainda batia pela Medicina

Em 2015, passou em Enfermagem na UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana). Ele conta que foi um momento de grande alegria para ele e para a família, porém ainda não era o que sonhava em fazer. Por isso, Matheus continuou estudando e fazendo o ENEM todos os anos até 2017, que foi um dos piores anos para ele, pois começou a ter aulas práticas em campo e via outros médicos e pensava: 

“Poxa, eu posso chegar lá também.”

Além disso, depois que tomou a decisão de que sairia de Enfermagem, não encontrou apoio da família, dos amigos e outras pessoas próximas, pois perguntavam se ele era doido de sair de um curso de graduação para tentar passar em Medicina, que possui uma concorrência muito alta, porém não impossível. Ele conta que também ouviu muitas críticas e palavras de desmotivação, pois não era possível que um cara negro e de periferia estaria pensando em cursar Medicina na UFRB, e isso só alimentava a sensação de incapacidade que sentia. Apesar de tudo, ele não desistiu e seguiu em frente.

  • As coisas foram apertando

No fim de 2017, Matheus voltou a estudar para o vestibular. O dinheiro que ele recebia nos anos anteriores era de bolsas e monitorias da faculdade, então quando saiu perdeu essa renda. Ele conta que isso o fez se sentir bastante triste e frustrado e, por isso, começou a dar reforço escolar, tanto para receber algum dinheiro, quanto para ajudá-lo a estudar e fixar os conteúdos. Para estudar, Matheus ia até uma biblioteca de onde morava, pois em sua casa havia muito barulho, o que atrapalhava a sua concentração.

No ENEM de 2018, tirou 920 na redação (boa, Matheus!), mas a prova não foi tão legal… Em 2019, tirou 900 na redação, mas a prova também não foi tão legal. Quando chegou 2020, ele estava decidido que ia ser o último ENEM, porque já era a 8º tentativa: 

“Falei que era tudo ou nada, tô no meu limite, qualquer coisa vou ser professor de biologia, vou ser feliz também, independente de qualquer ganho.”

  • Rotina de estudos

Mas aí você já sabe… Ela veio aí: a pandemia. Ele tentou estudar em casa, mas era impossível com o barulho dos irmãos, de bares etc. Daí tentou estudar na associação do bairro, mas também não funcionou. Ele diz que toda vez que tentava estudar, surgia um obstáculo maior, até pensou em parar de estudar para apenas trabalhar. Como o Chapolin Colorado, uma amiga apareceu e falou a Matheus: “eu tenho uma casinha pra te emprestar pra você poder estudar”. Quando ele chegou na casa, viu que era uma casa sem energia… 

“Meu Deus, aí fica complicado, porque a cada passo que eu tentava dar, vinha um obstáculo maior.”

E foi nessa casinha que ele estudou, foi no bar pedir uma cadeira, comprou uma mesinha e, como não tinha internet, usou livros para estudar e baixava PDFs quando ia em casa. Matheus conta que estudava das 11h às 18h, porque era o horário do ENEM. Com muita disciplina, estudava de domingo a domingo e, quando viu que a pandemia não ia passar, começou a estudar de máscara para treinar a respiração.

  • Chegando na prova…

Foi para o local de prova para fazer o ENEM 2020 e, chegando lá, notou que não seguiam muito as indicações de prevenção para a Covid-19 (vacilo, hein, INEP?). Quando viu a prova, pensou: 

“Isso aqui é muito desigual, aluno de escola pública não faz 30% dessa prova, o ENEM é a prova que deixa escancarada a desigualdade que temos no sistema de educação brasileiro

Isso é verdade, Matheus, e lamentamos muito que essa seja a realidade de boa parte dos estudantes brasileiros… Voltando à história, finalmente saiu o resultado! E adivinha, Matheus tirou nada mais, nada menos do que 980 na redação! Ele diz que a prova foi boa também, ou seja, a fórmula perfeita para a aprovação. Tentou a nota em medicina na UFBA (Universidade Federal da Bahia), que só tinha uma vaga para a modalidade à qual ele concorreu, mas não conseguiu. Por fim, tentou medicina na UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia) e conseguiu passar! (aêee 🥳)

“Quando eu passei, foi um dos melhores momentos da minha vida, porque não foi só um momento, foi meu caminho desde 2013 até o momento atual […]. Foi uma vitória mesmo, foi a realização de um sonho, as pessoas não acreditavam, zombavam de mim, falavam que eu era doido.”

Você não é doido, Matheus! Doido seria se deixasse de correr atrás dos próprios sonhos devido à opinião alheia. Aos 26 anos, depois de quase 8 anos fazendo ENEM e mais de 15 reprovações, Matheus está feliz da vida vivendo o que tanto almejou! Medicina na UFRB!

Ah, ele tem um recadinho muito importante para vocês, medaholics:

“Você que é vestibulando, não é só estudar, tem outros elementos. E tem um discurso que fica romantizando minha história: ‘se Matheus, negro, conseguiu, outros também vão conseguir’. Não vão, gente, porque há desigualdade.”

 

Confira o vídeo na íntegra da aprovação em medicina na UFRB:

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